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Como criar uma senha forte que dá pra lembrar

A resposta curta é que você não vai lembrar de todas, e não precisa: precisa lembrar de três. A resposta longa começa com uma medição. Toda senha “esperta” que a gente inventa segue um padrão de gente, e padrão de gente já está em lista — inclusive a sua, provavelmente.

Quantas vezes cada senha esperta já vazou

SenhaVezes em vazamentoO padrão que ela segue
P@ssw0rd6.421.042letra trocada pelo símbolo parecido
Abcd@12341.918.062os quatro tipos que o site exigiu, na ordem do teclado
102030401.364.926desenho no teclado numérico
123mudar1.181.150a da primeira troca obrigatória
mudar123725.559a mesma, ao contrário
deusefiel331.817frase curta de fé, sem espaço
familia123283.871palavra de afeto mais 123
Mudar@123223.824a de cima “reforçada” com maiúscula e símbolo
minhasenha206.449a piada que todo mundo achou que era só sua
Senha@123156.842a que passa na regra do sistema da empresa
flamengo123148.411time mais 123
euamominhamae71.390frase inventada, longa e sincera
Corinthians109.768time mais número da camisa
S3nh@1239.611a mesma coisa, agora em leet
correcthorsebatterystaple4.173a frase-senha famosa da tirinha xkcd
Tr0ub4dor&33.196o exemplo de senha “difícil” da mesma tirinha
gato-sombra-vento-pedra0quatro palavras da lista do gerador daqui, ligadas por hífen

Consultado em 9 de agosto de 2026 na base Pwned Passwords, pela API de k-anonimato: calcula-se o SHA-1 aqui e só os cinco primeiros caracteres do hash viajam, então nenhuma senha sai da máquina de quem consulta. A contagem é de ocorrências em vazamentos indexados, não de pessoas que usam a senha hoje.

A senha que passa em toda regra e vazou 1,9 milhão de vezes

Abcd@1234 tem maiúscula, minúscula, número e símbolo. Tem oito caracteres. Passa em praticamente todo formulário corporativo do Brasil, e o formulário ainda pinta a barrinha de verde. Ela aparece 1.918.062 vezes em vazamento.

A campeã da tabela é P@ssw0rd, com 6.421.042 ocorrências. É o exemplo que todo mundo aprendeu como jeito de fortalecer senha: trocar letra pelo símbolo parecido. O que ele fortalece, na prática, é a confiança de quem digita.

Isso não é opinião de blog. O NIST SP 800-63B-4, seção 3.1.1, diz que quem verifica senha não deve impor regra de composição — exigir mistura de tipos de caractere está escrito lá como exemplo do que não fazer. E manda fazer outra coisa no lugar: comparar a senha nova contra uma lista de bloqueio de senhas comuns, esperadas ou já comprometidas, incluindo as que vieram de vazamentos anteriores. É a diferença entre exigir formato e conferir se a senha já é conhecida.

Trocar “a” por “@” divide por dezesseis, não por um bilhão

Dá para medir. Senha@123 aparece 156.842 vezes. S3nh@123, que é a mesma palavra e o mesmo número com o “e” virando 3 e o “a” virando arroba, aparece 9.611. Ficou 16 vezes mais rara — e continua na lista, que é o que importa. Sair de um milhão de pessoas para dez mil não ajuda quando o ataque testa as dez mil em um segundo.

O motivo é que essa troca não é um segredo seu, é uma regra pública. No hashcat, a ferramenta que o pessoal usa para quebrar hash, o ataque baseado em regras é descrito pela própria documentação como “uma linguagem de programação feita para gerar candidatos a senha”. Substituir todo “a” por “@” é uma função de uma letra dentro dessa linguagem. Quem ataca não escreve mil variações: escreve a regra, e a lista de mil palavras vira uma lista de cem mil candidatos com o mesmo esforço.

O NCSC britânico explicou isso em 2021 de um jeito que vale copiar: nossa mente não guarda sequência aleatória de caracteres, então a gente recorre a padrão previsível, como trocar a letra “o” por zero. A exigência de complexidade não cria senha imprevisível. Cria a mesma senha de sempre, com um acento circunflexo em cima.

Zero não quer dizer segura, quer dizer que ainda não chegou

A tabela de cima tem uma linha perigosa, e ela é de propósito. Consultamos também o padrão de troca trimestral que empresa adora, e o resultado exige explicação.

SenhaVezes em vazamento
Verao@20242.312
Verao@202542
Verao@20260
Senha@20241.556
Senha@2025459
Senha@20261

A senha deste ano dá 0. A do ano passado dá 42. A de dois anos atrás dá 2.312. Nenhuma delas ficou mais forte ou mais fraca: mudou o calendário, e vazamento leva tempo para ser coletado, indexado e publicado. Quem lê a contagem zero como aprovação está usando uma senha que entra na lista no ano que vem.

O próprio NIST põe o limite dessa ferramenta por escrito na mesma seção: lista de bloqueio grande demais tem pouco ganho, porque ela serve contra ataque online, que já é contido por limite de tentativa. Lista de vazamento é piso, nunca teto. Ela responde “essa já era conhecida?” e nunca “essa é imprevisível?”.

A frase que você inventa é a frase que muita gente inventou

Quando a pessoa desiste da senha embolada, ela costuma ir para o outro extremo: uma frase inteira, longa, sem espaço, com significado pessoal. É melhor que 123456, e ainda assim a medição não perdoa. deusefiel aparece 331.817 vezes, euamominhamae 71.390, e minhasenha 206.449.

E o caso mais bonito da tabela: correcthorsebatterystaple, a frase da tirinha que popularizou a ideia de frase-senha no mundo inteiro, aparece 4.173 vezes. Não porque a ideia seja ruim, mas porque uma frase que virou exemplo deixou de ser sorteio e virou palavra de dicionário — com espaço nenhum e todas as letras minúsculas, exatamente como todo mundo copiou.

A diferença entre a frase que funciona e a que não funciona não é o tamanho, é quem escolheu as palavras. Frase que você inventa carrega o seu gosto, sua fé, seu time e sua família, e esse conjunto é pequeno e conhecido. Frase sorteada não carrega nada — é por isso que a última linha da primeira tabela dá zero, e continuaria dando zero no ano que vem.

Só que zero de vazamento não é atestado de força, como a seção de cima já mostrou. Aquela linha tem quatro palavras, e quatro palavras desta lista ainda são pouco contra ataque offline. Quantas são suficientes é outra conta, e é a da próxima seção.

Quantas palavras a frase precisa ter

A lista do gerador daqui tem 1.100 palavras, todas de quatro a oito letras, sem acento e nenhuma sendo começo de outra. Cada palavra sorteada vale log₂(1.100) ≈ 10,1 bits. A tabela abaixo é calculada pelo mesmo módulo que a ferramenta usa, não digitada aqui.

PalavrasBitsTempo no chuteNível
330menos de um segundofraca
440menos de um segundofraca
55013 minutosrazoável
66010 diasforte
77031 anosforte
88034 mil anosblindada

O NCSC recomenda três palavras aleatórias, e não está errado: o modelo de ameaça deles é o ataque pelo formulário de login, que é contido por limite de tentativa. A tabela acima assume o cenário ruim, o do banco de senhas vazado com ataque offline, e nesse cenário três palavras desta lista não chegam lá. É por isso que o padrão da ferramenta é 7 palavras, e que a faixa vai de 3 a 10.

Vale a comparação de escala. Frases de quatro palavras desta lista somam 1,5 trilhão de possibilidades: as 1,3 bilhão de senhas que o Have I Been Pwned carregou de uma vez em novembro de 2025 — 625 milhões delas inéditas — caberiam 1.126 vezes dentro desse espaço. E ainda assim quatro palavras não bastam contra ataque offline, porque quem ataca não testa lista: testa o espaço inteiro.

Duas notas de honestidade sobre essa lista. Ela é menor que a clássica do Diceware, de 7.776 palavras, e palavra de lista menor vale menos bit — o preço está pago no número de palavras do padrão. E ela é pública, o que não enfraquece nada: a conta de bits já assume que quem ataca conhece a lista inteira.

O tamanho mínimo mudou, e quase ninguém percebeu

A revisão 4 do NIST, na mesma seção 3.1.1, subiu o mínimo: quando a senha é o único fator de autenticação, o verificador deve exigir pelo menos 15 caracteres. Oito só continuam valendo quando existe segundo fator. E o máximo aceito deveria ser de pelo menos 64 caracteres — o que significa que site nenhum tem desculpa para recusar frase comprida.

Uma frase de 7 palavras desta lista passa dos 15 caracteres com folga sem que ninguém precise contar nada. É o único formato que fica confortável nas duas pontas: longo o bastante para a regra nova, simples o bastante para caber na cabeça.

A pesquisa diz que nem frase sorteada é fácil de decorar

Aqui é onde a maioria dos artigos sobre o assunto mente por omissão. Em 2012, um estudo da Carnegie Mellon com 1.476 participantes, publicado no SOUPS com o nome da própria tirinha, comparou frases sorteadas de três e quatro palavras com senhas sorteadas de cinco a seis caracteres e com senhas pronunciáveis de oito.

O resultado, nas palavras dos autores, foi contrário à expectativa: as frases se saíram de forma parecida com as senhas de entropia equivalente. Foram esquecidas em taxas parecidas, causaram o mesmo nível de dificuldade e irritação, e tanto umas quanto outras foram anotadas pela MAIORIA dos participantes. As frases ainda levaram significativamente mais tempo para digitar. Nenhuma das condições de frase superou as senhas em nenhuma métrica de usabilidade do estudo.

Então a frase-senha não é mágica de memória. O que ela é: um formato em que o sorteio é feito pela máquina, o resultado é digitável, e o erro de digitação é raro. A memória vem de outro lugar, e o próprio estudo aponta qual — as pessoas anotam. Anotar não é derrota.

A orientação de política de senha do NCSC diz, com todas as letras, que quando o gerenciador não serve a organização deve fornecer armazenamento físico seguro para senhas anotadas. E o NIST, na seção que já citamos, determina que o verificador deve permitir o uso de gerenciador de senhas e de preenchimento automático. Papel guardado em gaveta trancada tem um modelo de ameaça: alguém precisa entrar na sua casa. Senha repetida em quarenta sites tem outro: basta um dos quarenta vazar.

Você só precisa decorar três

A pesquisa da NordPass de abril de 2026 aponta uma média de 120 senhas por pessoa. O número tem ressalva grande e ela vai escrita: é levantamento de um fornecedor de gerenciador com 1.509 usuários dele, o que puxa a amostra para quem já organiza senha. Serve para a ordem de grandeza, não como censo. O NCSC diz a mesma coisa sem número: o usuário típico tem dezenas de senhas para lembrar, e não só a sua.

Ninguém decora dezenas de segredos aleatórios. A saída não é inventar um sistema esperto para gerar cem senhas na cabeça — todo sistema desses vira regra, e regra é o que a máquina do outro lado faz melhor que você. A saída é reduzir o que precisa ser decorado a três coisas:

  1. A senha que abre o aparelho, celular ou computador. Sem ela, o resto não abre.
  2. A senha-mestra do gerenciador, que guarda as outras cento e tantas.
  3. A senha do email principal, porque é por ele que se recupera tudo. Com dois fatores ligado, sempre.

Essas três você sorteia como frase e decora de verdade. Todo o resto é aleatório, comprido e feio, gerado e guardado por programa — porque ninguém vai digitar aquilo de memória nunca.

O método, na ordem

  1. Sorteie a frase no gerador, no modo Frase, com o padrão de 7 palavras. O sorteio é do crypto.getRandomValues do seu navegador e nada é enviado para lugar nenhum.
  2. Não troque a frase porque “não gostou” das palavras. Trocar até gostar é escolher, e escolher é o que a medição desta página reprova.
  3. Digite ela umas cinco vezes seguidas agora. Depois de novo daqui a uma hora, e no dia seguinte. É o que fixa.
  4. Escreva no papel enquanto não decorou e guarde o papel onde você guarda documento — não colado no monitor. Rasgue quando a mão já souber.
  5. Use essa frase em UM lugar só. Repetir senha é o que transforma um vazamento em vinte contas invadidas.
  6. Ligue a verificação em duas etapas no email e no banco. Com segundo fator, senha vazada deixa de ser conta perdida.

O que esta medição não cobre

A contagem do Have I Been Pwned é de ocorrências em vazamentos que alguém coletou, indexou e entregou ao serviço. Ela não diz quantas pessoas usam a senha hoje, não cobre vazamento que nunca virou público, e não é o total da base — esse número o serviço não publica em lugar estável, e por isso esta página cita só a carga de novembro de 2025, que tem post oficial com data.

As 17 senhas da tabela foram escolhidas por nós, por serem os padrões que aparecem em manual de empresa e em dica de rede social no Brasil. Não são amostra estatística de nada: são exemplos, e cada número vale por si. Quem quiser conferir faz o mesmo em um minuto, com o SHA-1 da senha e os cinco primeiros caracteres dele.

E o tempo da tabela de frases assume o cenário ruim de propósito: banco de hashes vazado, ataque offline, um trilhão de tentativas por segundo contra algoritmo rápido. Contra o formulário de login de um site de verdade, o mesmo ataque é milhões de vezes mais lento — e contra phishing, nenhuma dessas contas protege coisa alguma.

O que fazer agora

Se a sua senha principal se parece com qualquer linha da primeira tabela, ela não precisa ser quebrada: ela precisa ser procurada numa lista, e isso é instantâneo. Sorteie uma frase no gerador de senha, decore essa uma, e deixe o resto com o gerenciador. Se quiser ver de onde saem os bits da tabela, a conta inteira está em quanto tempo leva para quebrar uma senha, e a comparação bit a bit entre frase e senha embolada está em frase-senha: quantas palavras bastam.