Maiúscula em título: a regra do português não é a do inglês
Em português há duas maneiras certas de escrever um título, e cada uma tem um documento oficial atrás. A terceira, que põe maiúscula em todas as palavras — inclusive nas preposições —, não é de nenhuma das duas: é tradução de hábito inglês. Fomos ler os dois documentos e medir 70 títulos brasileiros de verdade para ver o que o país faz.
A resposta curta
| O que você está escrevendo | Como escrever | Exemplo |
|---|---|---|
| Manchete, post, título de seção, e-mail | Só a primeira palavra e os nomes próprios caixa de frase | Como calcular porcentagem no Excel |
| Título de livro, filme, música, obra | Qualquer uma das duas: caixa de frase, ou cada palavra com maiúscula menos as partículas | Menino de Engenho — ou Menino de engenho |
| Nome de jornal ou revista | Maiúsculas, sem opção — o Acordo trata à parte | O Estado de São Paulo |
| Mês, dia da semana, estação, idioma | Minúsculas, sempre — aqui o inglês engana mais | segunda-feira, outubro, primavera, português |
A linha do meio é a que gera briga, e ela é briga desde 1990: o Acordo declarou as duas formas válidas em vez de escolher uma. O resto do artigo é a prova de cada linha desta tabela.
O que o Acordo de 1990 diz, com as palavras dele
O Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa trata do assunto na Base XIX, que lista quando se usa minúscula inicial. A alínea c) é sobre bibliônimo, que é o nome técnico de título de obra:
“Nos bibliónimos/bibliônimos (após o primeiro elemento, que é com maiúscula, os demais vocábulos podem ser escritos com minúscula, salvo nos nomes próprios nele contidos, tudo em grifo): O Senhor do Paço de Ninães, O senhor do paço de Ninães, Menino de Engenho ou Menino de engenho, Árvore e Tambor ou Árvore e tambor”
Repare no que ele faz: imprime o MESMO título das duas maneiras e chama as duas de certas. Não é omissão nem brecha — é a decisão escrita. Quem exige uma delas em português está exigindo preferência própria, não regra.
E repare no que ele não faz: em nenhuma das versões a preposição “de” aparece com maiúscula. “Menino De Engenho” não está entre as opções. Essa forma não é uma terceira via em português; é o que acontece quando um programa aplica a regra do inglês num texto nosso.
No Brasil o Acordo é obrigatório desde 1º de janeiro de 2016: o período de convivência entre as duas normas ia terminar em 2013 e foi esticado por três anos pelo Decreto 7.875, de dezembro de 2012. Essa data está aqui pela notícia do Senado, que a gente leu — o texto do decreto no Planalto não abriu em nenhuma tentativa no dia desta pesquisa, e dizer isso é mais honesto do que citar de memória.
A regra antiga do Brasil, e por que ela ainda está por aí
O estilo que capitaliza quase tudo não é invenção de designer brasileiro: era a norma daqui. O Formulário Ortográfico de 1943, da Academia Brasileira de Letras, manda no item 9.º usar iniciais maiúsculas “nos títulos de livros, jornais, revistas, produções artísticas, literárias e científicas”, e dá exemplos como Imitação de Cristo e O Espírito das Leis.
A parte que interessa vem logo depois, na observação:
“Não se escrevem com maiúscula inicial as partículas monossilábicas que se acham no interior de vocábulos compostos ou de locuções ou expressões que têm iniciais maiúsculas: Queda do Império, O Crepúsculo dos Deuses, Histórias sem Data, A Mão e a Luva, Festas e Tradições Populares do Brasil”
Guarde a palavra: monossilábicas. O critério de 1943 não é “palavra pequena”, não é “palavra sem importância” e não é uma lista — é o número de sílabas. Isso tem consequência prática que ninguém escreve na internet, e é a próxima seção.
As 49 palavras que o conversor daqui minuscula
Esta lista não está escrita neste artigo: ela é lida do módulo que a ferramenta usa, então o texto não consegue discordar dela. Partimos ela em duas pelo critério de 1943 — e as 16 da direita são exatamente onde a nossa convenção se afasta do documento.
Monossílabas · 33
O Formulário de 1943 mandava escrever em minúscula, e a ferramenta faz igual. Aqui não há divergência nenhuma.
a · o · as · os · um · uns · à · às · ao · aos · de · do · da · dos · das · dum · em · no · na · nos · nas · num · por · pra · com · sem · sob · e · ou · nem · mas · que · se
Polissílabas · 16
Pela letra da observação de 1943, estas levariam MAIÚSCULA no meio do título. A ferramenta as minuscula assim mesmo, seguindo o costume das editoras de hoje.
uma · umas · duma · numa · pelo · pela · pelos · pelas · para · sobre · até · após · ante · entre · contra · desde
Honestidade sobre esta leitura: o Formulário não imprime nenhum exemplo com preposição polissílaba, então a coluna da direita é o que a REGRA diz, não um exemplo que ele tenha dado. Um título como “O Evangelho Segundo São João”, que circula assim há décadas, é a mesma leitura aplicada.
Nem o inglês capitaliza tudo
A ironia é que o hábito importado é uma versão piorada do original. O Chicago Manual of Style, que é a referência mais usada para título em inglês, responde assim quando perguntam sobre preposição: “Chicago and MLA lowercase all prepositions regardless of length”, enquanto “AP and APA capitalize words of more than three letters”. Ou seja: em inglês também há uma lista de palavras que descem, e os manuais brigam entre si sobre o tamanho do corte — três letras, quatro letras, ou preposição nenhuma.
Três tradições, três réguas diferentes para a mesma decisão: 1943 corta por sílaba, o AP corta por letra, o Chicago corta por classe de palavra. Nenhuma delas manda escrever “Menino De Engenho”.
Então de onde vem o hábito? De software. O guia de localização da Microsoft para português do Brasil diz, na página 27, que “the English language tends to do extensive use of capitalization” e que se devem seguir as regras do português — menos nas strings de interface, onde a orientação é seguir a capitalização do inglês por simplicidade de tradução. O exemplo do próprio guia é “Add to Contacts”, cujo alvo deixou de ser “Adicionar a contatos” e passou a ser “Adicionar a Contatos”.
Aí está a explicação de por que meio Brasil acha que título se escreve assim: não é gramática, é uma decisão de custo de tradução que vazou dos menus para os slides, dos slides para os títulos de blog, e dos títulos de blog para os botões de todo mundo.
O que o Brasil escreve de verdade
Copiamos 70 títulos como estavam escritos, de cinco fontes, e classificamos cada um por um critério mecânico que está descrito embaixo da tabela.
| Tipo de título | Quantos | Caixa de título | Caixa de frase | Mista | Sem decidir |
|---|---|---|---|---|---|
| Manchete de jornal | 44 | 0 | 19 | 25 | 0 |
| Título de livro | 21 | 3 | 11 | 3 | 4 |
| Título de filme | 5 | 3 | 0 | 0 | 2 |
Fontes: Agência Brasil (agenciabrasil.ebc.com.br); CNN Brasil (cnnbrasil.com.br); Companhia das Letras (página de lançamentos); Intrínseca (página de lançamentos); AdoroCinema (lista de filmes em cartaz). Coletado em 9 de agosto de 2026. “Caixa de título” é o título em que TODA palavra depois da primeira aparece com maiúscula, tirando as palavras pequenas da lista acima e as siglas; “caixa de frase” é aquele em que NENHUMA aparece; “mista” tem das duas, que é o caso normal de caixa de frase com nome próprio dentro; e “sem decidir” são os títulos curtos demais para o critério dizer alguma coisa. A conta é feita no build, não digitada.
O resultado é limpo demais para precisar de estatística: das 44 manchetes dos dois veículos, ZERO estão em caixa de título. Nenhuma. Jornal brasileiro escreve manchete como escreve frase, e as 25 “mistas” são manchetes com nome de gente, de time ou de país no meio.
Nos 5 filmes em cartaz, o contrário: 3 dos 3 que o critério consegue julgar estão em caixa de título. Distribuidora de cinema no Brasil ainda escreve como em 1943 — “Túmulo dos Vaga-Lumes”, “A Professora de Piano”.
E o miolo é o mais interessante: as editoras usam as duas, às vezes na mesma página de lançamentos. Dos 17 títulos de livro que o critério julga, 11 estão em caixa de frase, 3 são mistos e 3 estão em caixa de título. “Cem dias entre céu e mar” e “Até Encontrar Meu Marido” saíram lado a lado, pela mesma editora. Isso não é desleixo: é exatamente o que a Base XIX autorizou.
Quando um documento é técnico, a escolha some de novo. O manual de revisão da FUNAG, do Ministério das Relações Exteriores, manda escrever título de livro, dissertação e tese “com maiúscula apenas na primeira letra e nos nomes próprios”, e dá Memórias póstumas de Brás Cubas como exemplo — porque é o que a ABNT pede em referência bibliográfica. Se você está formatando um TCC, sua dúvida acabou aqui.
O modo Título daqui, medido contra os documentos
Os 13 títulos abaixo são os que estão impressos DENTRO do Formulário de 1943 e da Base XIX de 1990. É o gabarito mais próximo de oficial que existe. Cada um foi minusculado e devolvido ao conversor durante o build desta página.
| Como o documento imprime | O que a ferramenta devolve | Onde está escrito |
|---|---|---|
| Imitação de Cristo | Imitação de Cristo | Formulário de 1943, item 9.º |
| Horas Marianas | Horas Marianas | Formulário de 1943, item 9.º |
| Correio da Manhã | Correio da Manhã | Formulário de 1943, item 9.º |
| Revista Filológica | Revista Filológica | Formulário de 1943, item 9.º |
| O Espírito das Leis | O Espírito das Leis | Formulário de 1943, item 9.º |
| Queda do Império | Queda do Império | Formulário de 1943, observação |
| O Crepúsculo dos Deuses | O Crepúsculo dos Deuses | Formulário de 1943, observação |
| Histórias sem Data | Histórias sem Data | Formulário de 1943, observação |
| A Mão e a Luva | A Mão e a Luva | Formulário de 1943, observação |
| Festas e Tradições Populares do Brasil | Festas e Tradições Populares do Brasil | Formulário de 1943, observação |
| O Senhor do Paço de Ninães | O Senhor do Paço de Ninães | Acordo de 1990, Base XIX |
| Menino de Engenho | Menino de Engenho | Acordo de 1990, Base XIX |
| Árvore e Tambor | Árvore e Tambor | Acordo de 1990, Base XIX |
13 de 13. A coluna do meio não é digitada: é a saída da função rodando no build, e uma divergência derruba a publicação desta página.
Onde ela erra — os dois casos que a medição achou
| Você cola | Ela devolve | O certo seria |
|---|---|---|
| homem-aranha: um novo dia | Homem-Aranha: um Novo Dia | Homem-Aranha: Um Novo Dia |
| TSE cria conselho e IA | Tse Cria Conselho e Ia | TSE Cria Conselho e IA |
Homem-Aranha: Um Novo Dia — depois de dois-pontos começa um subtítulo, e a primeira palavra dele é primeira palavra de novo. A ferramenta só recomeça a contagem na quebra de LINHA, então o “um” caiu como palavrinha do meio.
TSE Cria Conselho e IA — o modo Título minuscula a palavra inteira antes de subir a inicial — é o que faz o texto GRITADO voltar ao normal — e a sigla é justamente a palavra que queria continuar gritando.
A segunda tem tamanho medido: 4 dos 70 títulos do corpus têm sigla dentro, e em todos eles a conversão estraga a sigla. “TSE” vira “Tse”, “ONS” vira “Ons”, “IA” vira “Ia”. O “G4” escapa, e só porque tem um número grudado.
Nenhuma das duas é acidente de programação: as duas são o preço de uma decisão que vale a pena na maioria das vezes. Minusculando tudo antes, a ferramenta conserta o TÍTULO QUE VEIO GRITADO, que é o caso mais comum de quem cola texto — e paga com as siglas. Está escrito aqui para você saber conferir depois de converter, e as duas linhas acima são conferidas pelo build: no dia em que forem consertadas, esta página para de publicar até alguém reescrever esta seção.
Os erros que aparecem toda semana
Mês e dia da semana com maiúscula. A Base XIX é direta: minúscula “nos nomes dos dias, meses, estações do ano”. Em inglês é October; aqui é outubro. É o erro mais frequente em post de rede social, e vem de tradução automática.
Idioma e nacionalidade com maiúscula. “Falo português”, não “Português”. O Acordo abre exceção só para nome de disciplina e curso, onde as duas formas valem — “estudo matemática” ou “estudo Matemática”.
Cargo com maiúscula no meio da frase. A Base XIX põe axiônimos em minúscula: “o senhor doutor Joaquim da Silva”, “o cardeal Bembo”. O nome próprio é maiúsculo; o cargo, não.
Nome de jornal em caixa de frase. Este é o contrário, e pega quem aprendeu a regra pela metade: periódico tem alínea PRÓPRIA na Base XIX, a f), com maiúsculas e itálico — O Primeiro de Janeiro, O Estado de São Paulo. Título de livro pode descer; nome de jornal não.
E a briga não é só nossa
A Wikipédia em português precisou VOTAR isso em 2006, porque não havia consenso. A proposta que seguia o critério de 1943 — capitalizar tudo menos artigo, preposição, conjunção e advérbio — ganhou por 34 a 29, com 63 votos. Cinquenta e quatro por cento contra quarenta e seis. Se um site inteiro de voluntários que escreve enciclopédia empatou quase no meio, a sua dúvida não é ignorância: é a língua estando dividida mesmo.
O que esta medição não prova
70 títulos de um dia não são censo. As manchetes saíram das capas de dois veículos numa manhã de domingo, e os livros são as páginas de lançamento de duas editoras — que publicam literatura, e não didático ou técnico, onde o costume pode ser outro. Os cinco filmes são poucos para qualquer afirmação forte, e estão aqui porque apontam na direção contrária à das manchetes, o que já é informação.
O critério de classificação também tem furo declarado: ele não sabe distinguir nome próprio de palavra comum. Um título cujas palavras grandes sejam todas nome próprio cai em “caixa de título” sem ter escolhido estilo nenhum, e é por isso que a coluna “mista” existe separada em vez de ser somada à de frase.
O que a amostra sustenta é só o que o texto usa: manchete não usa caixa de título no Brasil, obra usa as duas, e as duas convivem na mesma editora.
Como resolver na prática
Se o título for de conteúdo — post, manchete, título de seção, assunto de e-mail —, escreva como escreveria uma frase. É o que o Brasil faz, é o que a ABNT pede em referência e é o que dá menos trabalho de revisar.
Se for nome de obra, escolha uma das duas formas e mantenha em todo o material. As duas estão no Acordo; a mistura é que fica ruim.
O conversor daqui tem o modo Cada Palavra Com Maiúscula, que aplica a segunda forma — com as 49 palavras da lista acima em minúscula — e o modo Primeira letra da frase, que aplica a primeira. Só confira a sigla e o subtítulo depois dos dois-pontos, pelos dois motivos da seção anterior. Quem colou de um documento e viu o texto voltar estranho antes disso deveria ler também o que o Word põe no seu texto sem avisar.
Fontes
Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990, Base XIX. Formulário Ortográfico de 1943, item 9.º, na transcrição do Wikisource. Chicago Manual of Style, sobre preposição em título. Guia de localização da Microsoft para português do Brasil, seção 4.1.5. Manual de revisão da FUNAG. Votação da Wikipédia de 2006. Notícia do Senado sobre o Decreto 7.875/2012.