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Título e descrição no Google: o corte é em pixel, não em caractere

O Google não conta caracteres. Ele desenha o seu título com uma fonte, num tamanho, e corta onde acaba o espaço. Medimos 746 títulos de 29 domínios em português: dois títulos com a mesma contagem de caracteres chegam a diferir 99 pixels — um aparece inteiro, o outro sai cortado.

O que a documentação do Google diz, com todas as letras

Não é interpretação nossa, e não está escondido. A página sobre o link de título diz que o título “é truncado nos resultados da Busca conforme necessário, tipicamente para caber na largura do aparelho”. A página sobre o trecho é ainda mais direta: “não há limite de tamanho para uma meta description, mas o trecho é truncado nos resultados conforme necessário, tipicamente para caber na largura do aparelho”.

Repare no que essas duas frases não têm: um número. Nenhuma das duas fala em caractere, palavra ou byte. Falam em largura de aparelho, que é uma medida de tela — e tela mede em pixel.

A única regra da Busca que conta caractere de verdade é a diretiva max-snippet, e a definição dela é “use no máximo [número] caracteres como trecho de texto para este resultado”. É contagem de caractere, é limite de verdade, e quem escreve o número é você, não o Google.

A medição: 746 títulos brasileiros

O que foi medidoResultado
Títulos, de 29 domínios746
Deles, com meta description660
Caracteres por título, mediana57
Largura por título, mediana533 px
Largura de um caractere, mediana9,34 px
O título mais “magro” do corpus7,81 px por caractere
O mais “gordo”12,97 px por caractere
Passam de 561 px no computador44,2%

A amostra é de portal de notícia, site de governo, educação, saúde, finanças e enciclopédia — domínios em português, quase todos brasileiros. Cada título foi desenhado em Arial de 20 pixels, com as larguras lidas do arquivo da própria fonte. O orçamento de 561 px é o que o emulador de resultado do Screaming Frog usa, e é aproximação: o Google não publica esse número. Medido em 9 de agosto de 2026.

De onde vem a régua que todo mundo repete

Um caractere de título brasileiro mede, na mediana, 9,34 pixels. Divida o orçamento do computador por esse número e o resultado é 60 caracteres — que é, com uma casa de diferença, a régua de bolso que circula em todo artigo de SEO desde sempre.

Ou seja: a regra não é invenção. Ela é a mediana convertida em contagem, e por isso funciona para o título mediano. O problema é que ninguém escreve o título mediano — escreve o seu, que tem o nome da sua marca, os seus números e as suas maiúsculas.

É o mesmo número que a tabela do contador daqui mostra, e ele vai para o ar com a etiqueta colada: Não existe limite. A documentação diz, com essas palavras, que não há limite de tamanho e que o corte acontece “tipicamente para caber na largura do aparelho”. O número ao lado é regra de bolso, não regra.

No corpus inteiro a régua erra pouco: 13 títulos dentro da contagem são cortados assim mesmo, e 14 acima dela cabem sem problema — 3,6% do total. Só que todos esses erros estão no mesmo lugar: entre 50 e 70 caracteres, onde a régua erra 11,7% das vezes.

E essa é exatamente a faixa em que se escreve título. Ninguém abre um contador para saber se um título de vinte caracteres cabe.

Mesma contagem, larguras diferentes

Três pares de títulos reais do corpus. Dentro de cada par, os dois têm o mesmo número de caracteres — e é só isso que eles têm igual.

CaracteresTítuloLarguraCabe?
62Dia dos Pais: origem, oficialização, no Brasil - Brasil Escola527 pxcabe
62Rússia ataca armazém da OMS na Ucrânia com suprimentos médicos624 pxcortado
63Literatura: o que é, função, gêneros literários - Brasil Escola531 pxcabe
63Serra do Rola-Moça soma 116 chamados aos bombeiros em seis anos630 pxcortado
68Fórmula 1: Onde assistir, horários, classificação e últimas notícias586 pxcortado
68G1 Empreendedorismo: Oportunidades de negócios e soluções inovadoras667 pxcortado

O primeiro par tem a mesma contagem e 97 pixels de diferença. Um contador de caracteres mostra o mesmo número para os dois, e a Busca mostra coisas diferentes.

O que cada caractere custa

A largura de cada caractere em Arial de 20 pixels, lida do arquivo da fonte. O espaço em branco também ocupa espaço, e um travessão custa mais de quatro letras estreitas.

CaractereLarguraVezes o mais estreito
i4,44 px1×
l4,44 px1×
t5,56 px1,3×
espaço5,56 px1,3×
r6,66 px1,5×
c10 px2,3×
ç10 px2,3×
a11,12 px2,5×
e11,12 px2,5×
111,12 px2,5×
T12,22 px2,7×
A13,34 px3×
R14,44 px3,3×
C14,44 px3,3×
O15,56 px3,5×
m16,66 px3,7×
%17,78 px4×
W18,88 px4,2×
20 px4,5×
@20,3 px4,6×

A tabela completa da Arial tem 27 larguras distintas para os caracteres que o português usa. Estas são as que aparecem em título.

Um título só de…Cada um custaCabem no orçamento
i4,44 px126
a11,12 px50
m16,66 px33
W18,88 px29

O mesmo espaço leva 126 letras i ou 29 letras W. Qualquer regra em caracteres tem que escolher um número entre esses dois e esquecer o resto.

Caixa alta: a mesma contagem, quase um terço mais larga

TextoCaracteresLargura
promoção de black friday24223 px
Promoção de Black Friday24235 px
PROMOÇÃO DE BLACK FRIDAY24302 px

Três textos idênticos em contagem. Passar de “Como em título” para CAIXA ALTA custa 28,9% de largura sem acrescentar um caractere sequer. É a razão mais comum de um título “dentro da regra” aparecer cortado.

O nome do site no fim do título custa caro — e o Google já mostra esse nome

Sobre o sufixo de marcaResultado
Títulos que terminam em separador e marca476 (63,8%)
Quanto o sufixo ocupa, mediana118 px
O sufixo mais caro do corpus306 px
Títulos que só são cortados por causa dele55

Quase dois terços dos títulos brasileiros terminam com um separador e o nome do site. Isso consome, na mediana, 118 pixels — algo perto de um quinto de todo o espaço disponível no computador. E 55 títulos do corpus caberiam inteiros sem ele e são cortados com ele.

O detalhe que transforma isso em desperdício: a Busca já mostra o nome do site separado, acima do título, em todos os aparelhos. A documentação diz que o nome do site é diferente do link de título, e que ele vem principalmente de dados estruturados WebSite e de og:site_name. Repetir a marca dentro do título é pagar em pixel por uma informação que aparece de graça duas linhas acima.

Não é uma regra absoluta. Marca curta e conhecida, em página de produto, ainda ajuda quem varre a lista de resultados. Marca longa em página de conteúdo é quase sempre o primeiro pedaço a cortar quando falta espaço.

A descrição tem a mesma história, com outros números

Meta descriptionResultado
Descrições medidas660
Caracteres, mediana136
Largura, mediana866 px
Largura de um caractere, mediana6,45 px
Passam de 985 px27,3%

A descrição é desenhada menor que o título — perto de 14 pixels contra 20 — então cada caractere custa menos e cabe mais texto. Dividindo o orçamento de duas linhas pela largura mediana de um caractere, dá 152 caracteres. De novo: a régua de bolso que circula por aí é a mediana, convertida.

E de novo o valor de escrever para a régua é menor do que parece. A Ahrefs comparou a meta description com o trecho exibido em vinte mil buscas e 192.656 páginas: o Google reescreve a descrição 62,78% das vezes, e reescreveu 61,46% das descrições longas contra 63,69% das outras. Ou seja, ficar dentro do tamanho praticamente não mudou a chance de ser reescrita.

Caber não é o objetivo. O Google reescreve mesmo o que cabe

A Zyppy analisou 80.959 títulos de 2.370 sites e encontrou 61,6% deles reescritos pelo Google no resultado. A curva por tamanho é o que interessa aqui: títulos de um punhado de caracteres são reescritos quase sempre (96,6%), a menor taxa fica entre cinquenta e sessenta caracteres (39% a 42%), e acima de setenta o Google reescreve 99,9% das vezes.

A Ahrefs mediu 953.276 páginas que aparecem na primeira página de resultados, com outro método, e achou 33,4% — metade da taxa da Zyppy. A divergência é grande e vale dizer que existe; nas duas, reescrita é rotina, não exceção. O dado da Ahrefs que mais serve a esta página é outro, e está em pixel: títulos acima de 600 px passaram a ser reescritos 46,12% das vezes, contra 29,45% na medição anterior deles. Quando o Google descarta o seu título, o substituto mais comum é o h1 da página, em 50,76% dos casos.

Isso reordena as prioridades. O título que você escreve serve para duas coisas: dizer ao Google do que a página trata, e ser bom o bastante para ele não trocar. Caber na tela é a terceira. Um título que cabe e não descreve a página é o que mais chance tem de ser substituído — e o substituto sai do seu h1, que você também escreveu, mas sem estar pensando na busca.

A documentação diz de onde saem as reescritas: âncoras de links que apontam para a página, cabeçalhos, texto em destaque, og:title e o próprio conteúdo. Se o seu h1 e o seu título discordam, o Google escolhe.

Esta página mede o próprio título

O <title> deste artigo tem 82 caracteres e mede 743 pixels. Passa do orçamento do computador com folga, e não foi acidente: o assunto exige um título que diga “pixel”, “caractere” e “Google” na mesma linha. Abaixo, a régua com o orçamento — o que estiver fora da caixa é o que a Busca não mostra.

Título e descrição no Google: o corte é em pixel, não em caractere · Sem Lero-Lero

Cortando na palavra, como a Busca faz, sobra isto: Título e descrição no Google: o corte é em pixel, não em…. O nome do site é a primeira coisa a sumir — e é o pedaço menos importante, que é o desenho certo. A descrição desta página tem 149 caracteres e 952 pixels, ou seja, dentro do orçamento de duas linhas.

O que fazer, na prática

Pare de contar e comece a medir. A pergunta útil não é “tem quantos caracteres”, é “tem quantos pixels”. O contador daqui mostra a contagem que cada lugar usa, e para a Busca a régua honesta é esta página.

Ponha o que importa na frente. Se o corte é por largura e a largura varia, a única defesa que não depende de número é a ordem: o que a pessoa precisa ler primeiro vem primeiro. Título cortado no meio de um assunto que ainda não apareceu é título perdido.

Trate a marca como o último item. Ela já aparece acima do título, gerada pelo Google. Se você repetir, repita no fim, e saiba que ela está consumindo perto de 118 pixels.

Cuidado com CAIXA ALTA, número e símbolo. Caixa alta custa 28,9% a mais pela mesma contagem, e um % ou um @ vale mais de quatro letras estreitas.

Descrição é para clique, não para caber. A documentação diz que o trecho sai principalmente do conteúdo da página, e que a meta description entra quando “puder dar ao usuário uma descrição mais precisa” do que o texto de dentro. Escreva a frase que faria você clicar, e ponha a informação decisiva no começo — o corte vem do fim.

O que esta medição não prova

Os orçamentos de 561 e 985 pixels são aproximações de terceiros, não números publicados pelo Google. Eles mudam quando a Busca muda de layout, e mudaram várias vezes. Nenhuma conclusão desta página depende do valor exato: trocar um pelo outro muda quantos títulos estouram, não muda o fato de dois títulos com a mesma contagem terem larguras diferentes.

Medimos em Arial por dois motivos: é a família que a folha de estilo que a Busca serve a um navegador sem JavaScript declara, e é a que todas as ferramentas de SERP do mercado emulam. Não conseguimos conferir a fonte e o tamanho exatos que a Busca desenha hoje em cada aparelho — a página real precisa de JavaScript para montar — e dizemos isso em vez de fingir precisão.

A escolha da fonte importa menos do que parece, e isso nós medimos: comparando as larguras da Arial com as da Helvetica do mesmo computador, 141 dos 143 caracteres desta tabela têm avanço idêntico — só o ponto do meio e o símbolo do euro diferem. Liberation Sans e Arimo nasceram com a mesma métrica, pelo mesmo motivo: substituir a Arial sem reposicionar nada.

No celular a conta não é fixa, e a documentação já avisa: o corte é “para caber na largura do aparelho”. Aparelho estreito corta mais cedo, e o título pode ocupar mais de uma linha. A régua desta página é a do computador.

O corpus é de sites grandes: portal de notícia, governo, educação, saúde, finanças e enciclopédia. Loja pequena e blog pessoal escrevem título de outro jeito, e nada aqui mede isso.

A gente também publicou o número errado

Vale dizer de onde veio o interesse. O contador deste site esteve no ar afirmando um limite de título no Google, em caracteres, embaixo de uma frase que prometia seguir “a regra de cada lugar”. A documentação do Google diz que limite nenhum existe. O número saiu da ferramenta em 7 de agosto de 2026, junto com a tabela que hoje mostra, em cada linha, de onde o número veio e em que unidade ele é contado — e as duas réguas de bolso que sobraram carregam, escrito ao lado, que são regra de bolso e não regra.

É a mesma correção que este artigo pede de quem escreve título: não é que o número seja proibido. É que ele precisa vir com a etiqueta certa.

A tabela de limites de cada rede social é o outro lado deste assunto: lá os limites existem de verdade, e o campo recusa o que passa. Aqui não existe limite nenhum — existe uma tela, e ela tem tamanho.