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Trocar de senha todo mês não protege

A regra que manda você inventar uma senha nova a cada 90 dias tem autor, tem data de nascimento e tem desmentido público. Foi escrita em 1985, pedindo validade de um ano. Foi medida em 2010 e reprovada. Foi desaconselhada em 2016, e desde 2025 o órgão que a popularizou proíbe exigi-la. No Brasil, ela continua em normas assinadas em 2025.

Quem manda o quê sobre trocar senha

DocumentoDataO que diz sobre trocar por calendário
NIST SP 800-63B-4 (EUA)julho de 2025Proíbe exigir troca periódica. Obriga a troca só com evidência de comprometimento.
NIST SP 800-63B rev. 3 (EUA)junho de 2017Já desaconselhava, com verbo mais fraco: “não deveriam” exigir troca arbitrária.
NCSC (Reino Unido)outubro de 2016Recomenda NÃO forçar expiração: quanto mais troca, maior a vulnerabilidade.
Microsoft 365abril de 2026Para contas em nuvem, a configuração recomendada é a senha nunca expirar.
CERT.br, fascículo Autenticaçãonovembro de 2022Manda trocar senha exposta em vazamento. Não pede troca por calendário.
ANPD, guia de pequeno porteoutubro de 2021Não menciona troca periódica. Sugere complexidade, que o NIST hoje proíbe exigir.
ANAC, Norma Complementar nº 12março de 2025Exige troca a cada 90 dias, oito caracteres e os quatro tipos de caractere.
DoD CSC-STD-002-85 (“Green Book”)abril de 1985A origem da regra. Pede validade máxima de UM ANO, não de 30 ou 90 dias.

Cada um foi aberto no documento original — PDF, texto integral ou página oficial —, nunca em resumo de terceiro. A norma da ANAC está aqui como exemplo brasileiro vivo, não como lei nacional: ela vale dentro da agência. Conferido em 9 de agosto de 2026.

A regra nasceu em 1985 pedindo um ano, não noventa dias

O documento que inventou prazo de validade de senha é o CSC-STD-002-85, o “Green Book” do Departamento de Defesa americano, de 12 de abril de 1985. Ele diz, na seção 4.2.2.1: “recomenda-se que a validade máxima de uma senha não seja maior que 1 ano”.

E não é chute. O apêndice C traz a fórmula que sustenta o número: P = L × R ÷ S, em que P é a probabilidade de a senha ser adivinhada, L é o tempo em que ela vale, R é quantos chutes por unidade de tempo o atacante consegue dar e S é o tamanho do espaço de senhas. A validade é uma das três variáveis, e só faz sentido junto com as outras duas. Encurtar L era o recurso de quem não podia aumentar S — em 1985, com senhas geradas pelo sistema e um espaço minúsculo.

Ou seja: a regra dos 30, 60 ou 90 dias não vem do documento que inventou a validade de senha. Ele pedia um ano. Os prazos curtos vêm de outro lugar, e dá para apontar o dedo.

Os 42 dias que ninguém escolheu

Abra a política de senha de qualquer domínio Windows antigo e o campo “idade máxima da senha” está em 42 dias. Esse número não foi decidido por ninguém da sua empresa: é o padrão de fábrica da política de domínio documentado pela Microsoft — 42 dias no servidor autônomo, no controlador de domínio e no cliente.

A mesma página, que ainda é a que aparece na busca, se contradiz em dois parágrafos. Em “boas práticas” ela manda “definir a idade máxima da senha entre 30 e 90 dias”. Logo abaixo, numa nota, avisa que “a linha de base de segurança recomendada pela Microsoft não contém a política de expiração de senha, por ser menos eficaz que as mitigações modernas”. As duas frases convivem na mesma tela, e a primeira é a que virou política interna em meio mundo corporativo.

A recomendação atual da Microsoft para contas em nuvem não tem meio termo. Está no guia de política de senha do Microsoft 365: “a configuração recomendada é as senhas nunca expirarem”. E o motivo, na mesma página, serve para o artigo inteiro: “praticamente toda regra que você impõe aos usuários resulta em enfraquecimento da qualidade das senhas”.

A medição que derrubou a regra

Em 2010, três pesquisadores da Universidade da Carolina do Norte publicaram no CCS o primeiro estudo de larga escala sobre o assunto: The Security of Modern Password Expiration. Eles conseguiram 51.141 hashes MD5 de 10.374 contas desativadas da universidade, usadas entre 2004 e 2009, com 4 a 15 senhas gravadas por conta — o histórico inteiro de cada pessoa, em ordem.

A política daquela universidade é a que você provavelmente cumpre hoje: troca obrigatória a cada 3 meses, mínimo de 8 caracteres, obrigação de letra e número, obrigação de caractere especial e proibição de repetir a senha do último ano. Um retrato do padrão corporativo brasileiro, quinze anos antes.

Eles quebraram 31.075 dessas senhas e passaram a fazer a única pergunta que importa: dada uma senha antiga de alguém, dá para adivinhar a próxima? Os números da conclusão:

  • 41% das contas tiveram a senha seguinte quebrada a partir da anterior num ataque offline, com esforço médio de menos de 3 segundos por conta num processador de 2,67 GHz — de 2010.
  • 17% das contas caíram num ataque online, com menos de cinco tentativas em média. Cinco. É menos que o limite de bloqueio de qualquer sistema.
  • Entre as contas que já haviam transformado uma senha em outra alguma vez, a taxa sobe para 63%. Quem fez uma vez, faz de novo.

O motivo é humano e previsível: obrigado a trocar, ninguém inventa uma senha nova. As pessoas transformam a que já existe. Trocam “a” por “@”, sobem a primeira letra, empurram o número do fim para cima — “Marina2024!” vira “Marina2025!”. O estudo transformou essa intuição em algoritmo de busca e mostrou que ela vale para quatro em cada dez contas.

É por isso que a troca forçada pode piorar a situação. Ela não fabrica uma senha desconhecida: fabrica uma senha vizinha da anterior, e o único atacante que ela deveria atrapalhar é justamente o que tem a anterior na mão.

Quanto vale trocar de senha, em bits

Dá para colocar preço nisso, e a conta é curta. Trocar de senha a cada 90 dias significa que, ao longo de um ano, quem já tem sua senha antiga precisa testar 4 variações em vez de uma. Isso multiplica o trabalho dele por 4, o que em bits de entropia é 2. Todo mês, doze variações, 3,58 bits.

Um caractere a mais na senha, no alfabeto de 74 caracteres que o gerador daqui usa com os quatro tipos ligados, compra 6,44 bits. De uma vez, para sempre, e contra qualquer atacante — inclusive contra quem nunca viu senha nenhuma sua.

MedidaBits que ela compraContra quem funciona
Trocar de senha a cada 90 dias, por um ano2Só contra quem já tem a senha anterior
Trocar de senha todo mês, por um ano3,58Só contra quem já tem a senha anterior
Um caractere a mais na senha6,44Contra qualquer um, para sempre
Quatro caracteres a mais na senha25,47Contra qualquer um, para sempre

Os bits das duas últimas linhas são a diferença entre duas chamadas do mesmo bitsDeEntropia que o gerador usa. As duas primeiras linhas são log₂ do número de trocas — e são generosas com a troca periódica, porque assumem que a senha nova não tem relação com a anterior. Quando tem, o número real é o do estudo de 2010: cinco chutes.

Um caractere a mais vale mais que um ano inteiro de trocas trimestrais. Quatro caracteres a mais valem mais que uma década delas. E nenhum deles exige que ninguém decore nada novo em fevereiro.

A política que exige troca costuma aceitar senha de 3 minutos

Aqui está o problema de verdade das políticas brasileiras: elas gastam toda a paciência do usuário na regra que não funciona e liberam a que funcionaria. A tabela abaixo põe lado a lado o mínimo que uma norma de 2025 aceita, o mínimo que o NIST de 2025 exige e o padrão do gerador daqui.

SenhaRegrasBitsTempo no chute
8 caracteresMaiúscula, minúscula, número e símbolo, trocada a cada 90 dias483 minutos
15 caracteresSó minúsculas, sem regra de composição, sem troca7027 anos
16 caracteresSorteada pelo gerador daqui, os quatro tipos9911 bilhões de anos

“No chute” é o cenário ruim de propósito: banco de senhas vazado, ataque offline, um trilhão de tentativas por segundo. É a mesma escala de quanto tempo leva para quebrar uma senha, e os números saem do mesmo módulo.

A leitura é essa: a norma exige que você troque de senha quatro vezes por ano para proteger uma senha que cai em 3 minutos. Quinze letras minúsculas, sem símbolo, sem número e sem troca nenhuma, aguentam 27 anos. É por isso que a regra nova do NIST tem tamanho mínimo de 15 e proibição de exigir mistura de tipos: a complexidade que se cobra do usuário rende quase nada, e o tamanho rende tudo.

O que o NIST escreveu, em 2017 e em 2025

Vale ler a evolução, porque o verbo mudou. A revisão 3, de junho de 2017, seção 5.1.1.2, dizia: “Verifiers SHOULD NOT require memorized secrets to be changed arbitrarily (e.g., periodically)”. “Não deveriam”. Recomendação.

A revisão 4, de julho de 2025, seção 3.1.1.2, item 6, virou obrigação: “Verifiers and CSPs SHALL NOT require subscribers to change passwords periodically. However, verifiers SHALL force a change if there is evidence that the authenticator has been compromised”. “Não devem” — e no vocabulário do NIST, SHALL NOT é proibição, não sugestão.

No mesmo item 5 a mesma revisão proíbe exigir mistura de tipos de caractere. As duas regras que toda política corporativa brasileira aplica — troque a cada 90 dias, use símbolo — são as duas que o documento hoje proíbe impor.

O Reino Unido tinha chegado lá antes. O NCSC publicou em 5 de outubro de 2016 que “quanto mais os usuários são forçados a trocar de senha, maior a vulnerabilidade geral ao ataque”, e listou o porquê: a senha nova costuma ser parecida com a antiga, senha roubada é usada imediatamente, senha trocada tem mais chance de ser anotada num papel, e forçar a troca não dá nenhuma informação sobre se houve invasão.

A porta que a troca deveria fechar já está fechada — ou nunca esteve

A ideia por trás da expiração é elegante: se alguém pegou sua senha sem você saber, a troca expulsa essa pessoa. O problema é o prazo. Quem rouba uma senha usa no mesmo dia, muitas vezes na mesma hora — para mandar phishing dos seus contatos, para pedir Pix, para mexer no que interessa. Esperar 90 dias para expulsar alguém que entrou na terça é chegar três meses atrasado.

E quem entrou não fica dependendo da senha. Cria regra de encaminhamento no email, autoriza um aplicativo, gera uma chave de API, mantém a sessão aberta. Nada disso morre quando você digita uma senha nova. É por isso que a orientação séria não é “troque de tempos em tempos”, e sim: ao suspeitar, troque a senha, encerre todas as sessões e confira o que foi criado enquanto você não estava olhando.

O caso em que a troca é obrigatória continua existindo, e o NIST o escreve na mesma frase em que proíbe o resto: havendo evidência de comprometimento, o sistema deve forçar a troca. A regra não é “nunca troque”. É “troque quando houver motivo”.

Quando trocar de senha de verdade

Vale a pena trocar quando:

  • a senha apareceu num vazamento — o fascículo Autenticação do CERT.br é explícito: “ao ficar sabendo que alguma senha sua foi exposta é importante trocá-la imediatamente”;
  • você digitou a senha numa página que depois se revelou falsa, ou num computador de terceiro;
  • você usou a mesma senha em outro site e aquele site vazou;
  • alguém viu você digitando, você contou a senha, ou ela estava anotada em lugar que mudou de dono;
  • o serviço avisou de acesso estranho, ou apareceu login de um lugar onde você não estava.

Todos esses têm uma coisa em comum: são eventos. Não é o calendário que dispara a troca, é um fato. E quando o fato acontece, trocar em 30 dias não serve — tem que ser agora.

O que fazer no lugar

A revisão 4 do NIST não só tira a troca periódica: ela diz o que colocar no lugar, e a lista é boa. Para quem opera um sistema:

  • Mínimo de 15 caracteres quando a senha é o único fator (8 quando há segundo fator), e permitir até 64. Tamanho é a única regra que rende.
  • Comparar a senha nova com uma lista de senhas vazadas e recusar as que estão nela. O Have I Been Pwned oferece isso de graça e sem receber a senha: o site manda só os cinco primeiros caracteres do hash SHA-1 e compara o resto por conta própria.
  • Limitar tentativas de login. É o que segura o ataque online, e é o que torna a lista de bloqueio suficiente mesmo sem ser gigante.
  • Aceitar gerenciador de senha e o comando colar. O NIST manda permitir os dois. Bloquear o colar não protege nada e empurra a pessoa para a senha que ela consegue digitar de cabeça.
  • Nada de pergunta secreta nem de dica de senha visível — os dois estão proibidos na mesma seção.
  • Segundo fator. É a medida que sobra quando a senha vaza, e nenhuma política de troca substitui.

Para quem só quer resolver a própria vida: uma senha longa e diferente por serviço, guardada num gerenciador. O CERT.br sugere três palavras aleatórias como receita de memorização, e vale um aviso honesto — três palavras sorteadas da lista que o gerador daqui usa dão ≈30 bits, que esta casa classifica como fraca. Palavra sorteada funciona, mas em quantidade: o padrão daqui é 7.

“Mas a auditoria exige”

Às vezes exige mesmo, e não adianta discutir com o formulário. Dois recados para esse caso.

No Brasil, nenhuma lei manda trocar de senha. A LGPD não usa a palavra “senha” uma única vez — o texto da lei foi contado, não estimado. O art. 46 pede “medidas de segurança, técnicas e administrativas aptas a proteger os dados pessoais”, e o § 1º permite que a ANPD publique padrões técnicos mínimos. O guia da própria ANPD para agentes de pequeno porte fala de senha em quatro pontos — complexidade, senha padrão de fábrica, não compartilhar, e o elogio à autenticação em dois fatores — e em nenhum deles pede troca periódica.

O que existe são normas internas. A Norma Complementar nº 12 da ANAC, de 13 de março de 2025, é um exemplo publicado e datado: o art. 15 diz que “as senhas de acesso serão renovadas a cada 90 (noventa) dias” e que quem não trocar tem o acesso bloqueado, enquanto o art. 14 exige oito caracteres com os quatro tipos e proíbe repetir as quatro últimas. Norma interna se revisa por dentro — e a justificativa para revisar está toda neste artigo, com link em cada afirmação.

O caso mais duro é o de quem processa cartão. O PCI DSS, na versão 4, tem o requisito 8.3.9, que trata de senha usada como único fator de autenticação e oferece duas saídas: trocar a cada 90 dias ou analisar dinamicamente a postura de segurança das contas. Está escrito aqui com essa moldura porque não conseguimos abrir o PDF oficial: ele fica atrás do portal do PCI Security Standards Council, com aceite de termos, e responde 403 fora dele. O texto exato do requisito, portanto, não foi lido nesta pesquisa, e quem depende disso deve ler no portal antes de mudar qualquer coisa. Também não citamos a ISO/IEC 27002 em lugar nenhum deste artigo pelo mesmo motivo: é norma paga e não foi lida.

Como esta página foi feita

Os bits e os tempos não foram digitados: saem do mesmo módulo que o gerador de senha usa para desenhar a barra de força, calculados quando esta página é montada. A comparação central — o que a troca compra contra o que um caractere compra — é uma subtração entre duas chamadas da mesma função de entropia, e não duas contas diferentes que poderiam discordar.

As oito fontes da tabela foram abertas no original. Duas não foram, e estão declaradas acima. Se você achar erro em qualquer número desta página, é erro nosso e queremos saber — o endereço está em contato.