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Margem de lucro e markup não são a mesma coisa

Comprou por R$ 100, multiplicou por 1,3, vendeu por R$ 130 e anotou “30% de lucro”. O lucro foi de 23,08%. A diferença não é detalhe de contador: são 6,92 pontos que sumiram entre o que você acha que guardou e o que entrou no caixa — e ela cresce quanto mais caro for o produto.

A confusão inteira cabe numa frase

Markup é quanto você multiplica o custo. Margem é quanto sobra do preço. São duas porcentagens de coisas diferentes, e é só isso — mas como o preço é sempre maior que o custo, a mesma quantia de dinheiro vira um número grande quando dividida pelo custo e um número menor quando dividida pelo preço.

No exemplo de cima: sobraram R$ 30. Sobre o custo de R$ 100, isso é 30%. Sobre o preço de R$ 130, é 23,08%. Os dois números estão certos; o que está errado é chamar o primeiro de margem, porque margem tem denominador fixo, e é o preço.

Quem faz orçamento, quem negocia com comprador de rede e quem preenche proposta de licitação fala em margem. Quem está atrás do balcão faz markup. A conta abaixo é a ponte entre os dois.

O que você acha que ganha, e o que ganha

Você multiplica porE anotaMargem de verdadeSome, em pontos
1,110%9,09%0,91
1,220%16,67%3,33
1,330%23,08%6,92
1,550%33,33%16,67
1,880%44,44%35,56
2100%50%50
2,5150%60%90
3200%66,67%133,33

Repare na última linha. Triplicar o custo parece “200% de lucro” e é uma margem de 66,67% — nem 70% do preço. Nenhum produto do mundo devolve margem de 100%, porque margem é fatia do preço e o custo sempre ocupa uma parte dela. É uma impossibilidade aritmética, e ainda assim é o que muita planilha promete.

A tabela que resolve, para colar na parede

Ao contrário: se você quer guardar uma margem, por quanto precisa multiplicar o custo?

Para guardar esta margemMultiplique o custo porUm custo de R$ 100 vira
10%1,1111R$ 111,11
15%1,1765R$ 117,65
20%1,25R$ 125
25%1,3333R$ 133,33
30%1,4286R$ 142,86
40%1,6667R$ 166,67
50%2R$ 200
60%2,5R$ 250

A fórmula é uma divisão só, e cabe na cabeça: 100 dividido por (100 menos a margem que você quer). Para guardar 30%, divide-se 100 por 70 e dá 1,4286 — e não 1,30, que é o que quase todo mundo faz.

O preço não paga só o custo

Até aqui a conta só tinha custo e lucro. Na vida real, do preço saem também imposto, taxa de maquininha, comissão de plataforma, frete subsidiado. E todos eles são fatias do preço, não do custo — que é exatamente por que entram na mesma divisão.

O Sebrae publica essa fórmula com o nome de markup divisor: 100 ÷ [100 − (despesas variáveis + despesas fixas + lucro)]. Some tudo que sai do preço em porcentagem, inclusive o lucro que você quer, e divida.

A mesma vendaSai do preçoMultiplicadorPreço de um custo de R$ 100
Loja de rua, dinheiro ou Pix24%1,3158R$ 131,58
Mesma loja, no cartão de crédito27,5%1,3793R$ 137,93
A mesma venda num marketplace43,5%1,7699R$ 176,99

Em todos os três, o lucro pedido é o mesmo: 20% do preço. A alíquota do Simples é lei (veja a seção abaixo). A taxa de cartão e a comissão de plataforma são exemplo: cada adquirente e cada marketplace cobra o seu, e os dois negociam por volume. Troque pelos seus números — a conta é a mesma.

O mesmo preço em três lugares diferentes

Agora o erro que fecha loja. O lojista calculou o preço para a venda no balcão — R$ 131,58 para um custo de R$ 100 — e usou esse mesmo preço em todo lugar:

Vendendo emSobra de verdadeMargem real
Loja de rua, dinheiro ou PixR$ 26,3220%
Mesma loja, no cartão de créditoR$ 21,7116,5%
A mesma venda num marketplaceR$ 0,660,5%

Os 20% viraram 0,5%. Sobre um custo de R$ 100, o que ficou na mão foram R$ 0,66 — para ter que comprar, estocar, embalar, despachar e atender.

E o mais assustador é quão perto do zero isso passa. Com esse mesmo preço, a conta zera quando a comissão da plataforma chega a 16,5%. A do exemplo é 16%. Ou seja: 0,5 ponto de comissão separa esse produto do vermelho — e comissão é justamente o número que a plataforma muda sem pedir licença.

O preço certo para esse canal seria R$ 176,99, e não R$ 131,58. Não é ganância: é o que faz a venda pagar o próprio custo.

A alíquota que você paga não é a da tabela

Para pôr o imposto na conta acima é preciso saber quanto ele é de verdade, e aqui mora um erro que circula em toda tabela de Simples Nacional republicada por aí: a coluna “alíquota” do Anexo I da Lei Complementar 123/2006 não é o que a empresa paga. A lei manda descontar uma parcela fixa, e o que vale é o resultado: (receita × alíquota − parcela a deduzir) ÷ receita.

FaixaReceita em 12 meses atéAlíquota da tabelaParcela a deduzirEfetiva no topo da faixa
1ªR$ 180.0004%4%
2ªR$ 360.0007,3%R$ 5.9405,65%
3ªR$ 720.0009,5%R$ 13.8607,575%
4ªR$ 1.800.00010,7%R$ 22.5009,45%
5ªR$ 3.600.00014,3%R$ 87.30011,875%
6ªR$ 4.800.00019%R$ 378.00011,125%

A empresa da última faixa ostenta 19% e paga 11,125%. Quem monta preço com o número da coluna errada põe 7,875 pontos de imposto que não existem dentro do próprio preço, e perde venda por isso.

E há uma esquisitice na lei que quase ninguém publica: a alíquota efetiva não sobe sempre. No topo da 5ª faixa ela é 11,875%. Um centavo depois, já na 6ª, ela cai para 8,5% — porque a parcela a deduzir salta de R$ 87.300 para R$ 378.000. Faturar mais, ali, faz a empresa pagar proporcionalmente menos, e ela só volta ao patamar anterior perto do teto do Simples. Não é brecha nem manobra: é o desenho da tabela, e está na lei.

Existe um teto, e ele explode antes de chegar lá

Como a conta é uma divisão por “100 menos a soma”, quanto mais coisa sai do preço, mais violento fica o multiplicador — e não de forma proporcional:

Sai do preço, no totalMultiplique o custo por
50%2
60%3
70%3
80%5
90%10
95%20
98%50
99%100

Em 100% não existe preço nenhum: seria preciso um preço infinito, porque tudo que entrasse já teria dono antes de sobrar o primeiro centavo para o custo. É por isso que negócio com comissão alta não se salva “vendendo mais” — se a soma passou do que o produto aguenta, o volume só multiplica o buraco.

O jeito rápido de conferir o seu

Pegue um produto que você vende. Divida o que sobrou pelo preço, e não pelo custo — é a conta “A é quantos % de B” da calculadora de porcentagem daqui. Se o número que aparecer for bem menor que o que você tinha na cabeça, você estava medindo por markup e chamando de margem. É a mesma calculadora que fez todas as tabelas desta página.

De onde saiu cada número

As alíquotas e as parcelas a deduzir são o Anexo I da Lei Complementar 123/2006, com redação da Lei Complementar 155/2016, em vigor desde 01/01/2018 — lidas no texto publicado no Planalto em 9 de agosto de 2026, e não em tabela republicada por terceiro. A fórmula do markup divisor é a que o Sebrae publica.

Nenhuma porcentagem desta página foi digitada à mão: todas passam pelo módulo da calculadora do site, e o site não compila se as duas contas — margem a partir do markup e markup a partir da margem — deixarem de ser uma o inverso da outra.

Onde este texto estava errado

Duas afirmações desta página nasceram erradas e foram corrigidas pela conta, não pela revisão. A primeira dizia que vender no marketplace com o preço do balcão dava prejuízo: não dá, sobra R$ 0,66, e no lugar da frase entrou um número melhor, que é a comissão exata em que a conta zera. A segunda era um teste que exigia que a alíquota efetiva do Simples sempre subisse com o faturamento — ela não sobe, e o degrau para baixo da 6ª faixa virou seção própria.

O que este artigo não faz

Isto é aritmética de preço, não consultoria contábil. A alíquota real da sua empresa depende do anexo em que ela se enquadra (aqui usamos o do comércio), do fator R quando for o caso, de substituição tributária e de outras regras que só o seu contador conhece. O texto da lei no Planalto ainda traz remissão à Lei Complementar 214, de 2025, da reforma tributária — o que muda daqui para frente não está medido nesta página.

Taxa de cartão, comissão de plataforma e despesa fixa rateada são exemplos, e estão marcados como exemplos em toda tabela onde aparecem. O que não é exemplo é a forma da conta: some tudo que sai do preço, inclusive o lucro, e divida 100 por 100 menos essa soma.