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Como saber se a sua senha vazou

Dá para descobrir sem entregar a senha para ninguém — nem para quem responde. Medimos o que sai do seu computador durante a consulta: viajam cinco caracteres, e a sua senha volta escondida no meio de outras 1.979. Também contamos o tamanho da base, os vazamentos brasileiros catalogados e o que acontece quando se testa o gerador deste site contra ela.

A resposta rápida

Para uma senha: abra o Pwned Passwords e digite. É de graça, não pede cadastro, e a página não recebe a sua senha — a seção seguinte mostra, medida, exatamente o que ela recebe.

Para um e-mail: a busca na primeira página do Have I Been Pwned diz em quais vazamentos aquele endereço apareceu. Também de graça.

Se apareceu, a ordem de troca é esta: o e-mail primeiro — quem controla o e-mail redefine todo o resto —, depois banco e qualquer conta com dinheiro, depois todo lugar onde você repetiu aquela senha. Repetir é o que transforma um vazamento de loja de sapato em invasão de conta bancária.

O que sai do seu computador quando você checa

A técnica se chama k-anonimato e cabe em três passos. O seu aparelho calcula o SHA-1 da senha e fica com ele. Manda para o servidor apenas os cinco primeiros caracteres desse código. O servidor devolve todos os finais de código que começam daquele jeito, e a comparação acontece no seu aparelho, sem mais nenhuma ida à rede.

Quem está do outro lado sabe que você perguntou por uma senha daquele balaio. Não sabe qual. O tamanho do balaio é a única coisa que decide se isso protege ou não — e é um número que ninguém publica em português, então medimos.

O que medimosResultado
Prefixos possíveis1.048.576
Prefixos consultados512
Senhas na resposta, em média1.979
Mediana1.976,5
Menor resposta1.806
Maior resposta2.509
Tamanho da resposta76 KB em média
Tempo de uma consulta28 ms

512 prefixos consultados em 9 de agosto de 2026, escolhidos por passo fixo — um a cada 2.048 — e não por sorteio, para que a amostra possa ser refeita igual. Todos responderam HTTP 200.

Traduzindo o número que importa: quando você checa uma senha, quem responde fica sabendo que ela é uma entre 1.979. É proteção de verdade, e ela melhorou sozinha com o tempo — quanto maior a base de senhas vazadas, maior o balaio em que a sua se esconde.

O número que circula na internet é outro: 788. Ele vem de um texto do dono do serviço de 30/06/2022, quando a base tinha cerca de 850 milhões de senhas. De lá para cá ela cresceu 2,5 vezes, e o esconderijo cresceu junto. Quem repete os 788 hoje está citando uma medição de quatro anos atrás.

A promessa que a documentação faz e a base já não deixa cumprir

A API tem um recurso extra de privacidade: um cabeçalho de enchimento que manda o servidor acrescentar entradas falsas à resposta, todas com contagem zero, que o seu aparelho descarta depois de receber. Serve contra quem observa o tráfego de fora: mesmo sem conseguir ler o conteúdo cifrado, dá para medir o TAMANHO da resposta, e o tamanho denuncia qual prefixo foi pedido.

A documentação oficial descreve o efeito com número: “Pads out responses to ensure all results contain a random number of records between 800 and 1,000”. Toda resposta com entre 800 e 1.000 registros, portanto indistinguíveis pelo tamanho.

Refizemos a consulta nos mesmos 64 primeiros prefixos, agora com o cabeçalho ligado. Não é o que acontece:

RespostaMenorMaiorAmplitude
Sem enchimento1.8062.509703
Com enchimento1.9322.677745
O que a documentação promete8001.000200

Duas coisas de uma vez. A faixa prometida virou impossível: a menor resposta que existe hoje, já sem enchimento nenhum, tem 1.806 registros — mais que o teto de 1.000 que a documentação promete entregar. E o enchimento parou de fazer o que prometia: ele acrescenta de 10 a 198 entradas falsas (média de 103, cerca de 4% da resposta), e a amplitude entre a maior e a menor resposta fica maior com ele (745) do que sem (703).

Isso não vaza a sua senha, e não é motivo para deixar de checar: o prefixo continua sendo cinco caracteres e o balaio continua com 1.979 senhas dentro. É documentação que envelheceu junto com o produto, num parágrafo que a pessoa lê justamente para decidir se confia. Vale para qualquer serviço: número em documentação tem data de validade, e quase nunca tem data escrita.

Quantas senhas essa base guarda

O serviço não publica a conta atual. Ela sai da nossa medição: a média de 1.979 senhas por prefixo, multiplicada pelos 1.048.576 prefixos que existem, dá cerca de 2,08 bilhões de senhas distintas. Somando as contagens de cada uma, são cerca de 56 bilhões de aparições em vazamentos.

É estimativa, e a palavra é escolhida: medimos 512 dos 1.048.576 prefixos, um a cada 2.048. O que dá confiança nela é uma conferência que não depende dela: a razão entre o nosso número e o de 2022 dá 2,44, e a razão entre as respostas por prefixo — 1.979 contra 788 — dá 2,51. Dois caminhos independentes, a mesma resposta. Se discordassem, esta seção não existiria: é o que a trava do build cobra.

Aparecer na lista não quer dizer que invadiram a sua conta

A contagem ao lado da senha é quantas vezes aquele texto apareceu em vazamentos — de qualquer pessoa, em qualquer serviço. Não existe vínculo com você. Uma senha comum aparece milhões de vezes porque milhões de pessoas a escolheram, não porque alguém entrou na sua conta.

O que a aparição significa é outra coisa, e é suficiente: aquele texto está nas listas que os programas de ataque usam para tentar entrar. Uma senha que aparece uma única vez já está queimada — quem ataca não tenta por popularidade, tenta a lista inteira. Se quiser ver quanto isso pesa em senhas que parecem seguras, está medido no artigo de como criar uma senha forte e fácil de lembrar, onde Abcd@1234 aparece quase dois milhões de vezes.

E o e-mail: quais vazamentos brasileiros estão catalogados

O mesmo serviço mantém um catálogo de vazamentos, e essa lista é pública: consultamos e são 1.026 vazamentos, somando 17,8 bilhões de contas. 673 deles (66%) levaram senha junto, e não só e-mail e nome — são 11,8 bilhões de contas com senha exposta.

Filtrando por domínio brasileiro, sobram 9, com 49,5 milhões de contas:

VazamentoContasDataLevou senha
Speediospeedio.com.br27.501.04124/12/2024Não
Estante Virtualestantevirtual.com.br5.412.60328/02/2019Sim
Descomplicadescomplica.com.br4.845.37814/03/2021Sim
Vakinhavakinha.com.br4.775.20322/06/2020Sim
Habib’shabibs.com.br — catalogado como “Misattributed Habib's Data”: o próprio serviço diz que os dados foram atribuídos à empresa errada3.517.67905/08/2021Não
James Deliveryjamesdelivery.com.br1.541.28425/03/2020Sim
Cathocatho.com.br1.173.01201/03/2020Sim
Netshoesnetshoes.com.br499.83607/12/2017Não
HomeRefillhomerefill.com.br187.45702/04/2020Sim

Consultado em 9 de agosto de 2026 na rota aberta do catálogo, que não exige chave. O recorte é por domínio terminado em .br, e por isso é pequeno: 0,28% das contas do catálogo. Vazamento estrangeiro que atingiu brasileiro em massa — rede social, loja, serviço de e-mail — não entra nessa conta e é a maior parte do problema.

A empresa é obrigada a avisar você em três dias úteis

Isso é lei aqui, e quase ninguém sabe. A LGPD manda comunicar incidente de segurança, e a Resolução CD/ANPD nº 15, de 24 de abril de 2024, diz quando e como. O artigo 5º lista o que torna a comunicação obrigatória, e o inciso IV é exatamente o nosso caso: “dados de autenticação em sistemas” — senha vazada é comunicação obrigatória, por escrito.

O artigo 9º dá o prazo: “A comunicação de incidente de segurança ao titular deverá ser realizada pelo controlador no prazo de três dias úteis contados do conhecimento pelo controlador de que o incidente afetou dados pessoais”. E manda que seja “de forma direta e individualizada”, em “linguagem simples e de fácil entendimento”, dizendo quais dados vazaram, que riscos isso traz e com quem falar.

Compare com a sua experiência: quantas vezes você descobriu por e-mail da empresa, e quantas por notícia, por um site de consulta ou por golpe chegando no seu telefone. O prazo existe; o hábito de cumprir é outra história — e é por isso que checar por conta própria não é paranoia, é a única fonte que responde na hora.

Testamos o gerador deste site contra a base

Geramos 150 senhas de cada modo do gerador daqui e consultamos uma por uma. A coluna de força é a mesma conta que a ferramenta mostra na tela enquanto você mexe nos controles.

ModoFormatoForçaJá vazaramMediana de apariçõesCampeã
Aleatória16 caracteres, quatro tipos99 bits0 de 150
Celular20 caracteres, minúscula e número101 bits0 de 150
Frase7 palavras sorteadas71 bits0 de 150
Frase3 palavras sorteadas30 bits0 de 150
PIN6 dígitos20 bits150 de 15033746.071
PIN4 dígitos13 bits150 de 15014.509431.379

A metade de cima é o resultado esperado, e vale pouco: senha sorteada de um espaço gigante não está em lista nenhuma porque ninguém nunca a escreveu. Não confunda com garantia — ela não vaza ainda, e vaza no dia em que o site onde você a usou for invadido. A vantagem real de sortear é outra: como ela não se repete em lugar nenhum, o estrago fica preso naquele site.

A metade de baixo é a que interessa. Os 150 PINs de seis dígitos sorteados pela nossa ferramenta já estavam todos na base, com mediana de 337 aparições. Nos de quatro dígitos, a mediana sobe para 14.509 e a campeã aparece 431.379 vezes.

E isso não tem conserto por sorteio melhor. Existem 1.000.000 PINs de seis dígitos, e a base guarda cerca de 2,08 bilhões de senhas — 2.076 vezes mais itens do que PINs existem. Não sobra PIN inédito para sortear. É a mesma conclusão que a ferramenta já escreve embaixo do botão: É fraco por natureza: use onde o aparelho não aceita letra, nunca em site.

Repare também que “já vazou” e “é fraca” são perguntas diferentes. A frase de três palavras da tabela não apareceu na base e mesmo assim tem menos da metade dos bits da de sete — quanto isso custa em tempo de ataque está no artigo de quantas palavras bastam numa frase-senha.

O que fazer quando ela aparecer

Trocar aquela senha em todo lugar onde ela foi usada, e por uma diferente em cada lugar. Trocar num site só resolve um site.

Não trocar por uma variação. Senha@2025 virando Senha@2026 é o movimento que os programas de ataque tentam primeiro — está medido no artigo sobre por que trocar de senha todo mês parou de ser recomendado, que também explica a diferença entre trocar por rotina (inútil) e trocar porque vazou (obrigatório).

Ligar a verificação em duas etapas onde der, começando pelo e-mail. Com ela ligada, senha vazada deixa de ser suficiente para entrar.

Parar de decorar. Ninguém decora quarenta senhas diferentes — decore três (o aparelho, o gerenciador, o e-mail) e deixe o gerenciador com o resto.

Onde não checar

Qualquer site que peça a senha inteira, ou o hash inteiro, e mande para o servidor. O jeito certo é o desta página: só o pedaço viaja. Um formulário que recebe a senha completa pode até ser honesto — e mesmo assim você acabou de entregar a senha, com o seu endereço de rede do lado, para um serviço que não tem como provar que não guardou.

Também desconfie de página que pede CPF, telefone ou cadastro para “consultar vazamentos”. Consulta de senha não precisa saber quem você é. Quando pede, o produto é você.

Vale lembrar que os navegadores fazem essa checagem sozinhos, sem você pedir: os gerenciadores de senha do Chrome, do Safari e do Firefox avisam quando uma senha salva aparece em vazamento. Se você usa um deles, metade do trabalho já está feita — o que falta é agir no aviso em vez de fechá-lo.

O que esta medição não cobre

Medimos 512 prefixos de 1.048.576, em 9 de agosto de 2026. O total de senhas da base é estimativa tirada dessa amostra, não contagem — e a base cresce, então o número envelhece sozinho, como envelheceu o de 2022 que este artigo corrige.

Não lemos nenhuma base de vazamento, e não temos nenhuma: tudo aqui sai de consultas públicas ao serviço de terceiro, que é quem carrega esse material. Também não medimos a busca por e-mail: a consulta por endereço só é gratuita na página do serviço, e a rota de programa exige assinatura paga — então sobre e-mail este artigo repassa o que o catálogo publica, sem medição própria.

O recorte brasileiro é por domínio .br e só enxerga vazamento catalogado por esse serviço. Vazamento nunca publicado, nunca catalogado, ou de empresa brasileira em domínio .com fica de fora — e “não apareceu” nunca quer dizer “não vazou”.

Para gerar a próxima, o gerador daqui sorteia no seu navegador e não manda nada para lugar nenhum — nem para nós. As senhas desta medição saíram dele, uma por uma, do mesmo jeito que sairia a sua.