O Google penaliza texto feito por IA?
Não — e o motivo é mais interessante que a resposta. Em 6 de março de 2024 o Google APAGOU a política que falava em conteúdo gerado automaticamente e pôs outra no lugar, que não fala de como o texto nasce. Medimos 47 capturas dessa página no arquivo da web, de 13 de outubro de 2022 a 2 de agosto de 2026, para saber o dia exato.
A resposta curta, com a fonte do lado
O Google tem 16 políticas de spam publicadas. Nenhuma delas se chama “conteúdo de IA”, “conteúdo gerado por máquina” ou coisa parecida. Fomos atrás de quantas sequer mencionam a sigla: separamos a página de hoje em suas 16 seções e procuramos a palavra em cada uma.
Responde uma, e responde uma vez: Abuso de conteúdo em escala. E o que ela diz sobre IA não é uma proibição — é um exemplo de como fazer a coisa errada, que também pode ser feita sem IA nenhuma.
“Abuso de conteúdo em escala ocorre quando muitas páginas são geradas com o objetivo principal de manipular as classificações da pesquisa, e não ajudar os usuários. Essa prática abusiva costuma criar, independentemente de como cria, grandes volumes de conteúdo não original que oferece pouco ou nenhum valor aos usuários.”
Leia de novo a parte do meio. “Independentemente de como cria” é a frase inteira deste artigo: o que a política persegue é muitas páginas + sem valor para quem lê + para manipular ranking. Tirar qualquer um dos três e sobra alguma coisa que a política não descreve. Uma página feita com IA, útil, que existe porque alguém precisava dela, não bate em nenhum dos três.
O dia em que a regra mudou de nome
Essa política é nova, e dá para saber exatamente quando ela nasceu. O Internet Archive guardou a página de políticas do Google mês a mês; nós baixamos 47 capturas e, quando o mês suspeito apareceu, descemos para uma por dia.
| Captura | Políticas | Fala em conteúdo gerado automaticamente? |
|---|---|---|
| 5 de março de 2024, às 09:00:48 | 14 | Sim |
| 6 de março de 2024, às 12:12:52 | 16 | Não |
Entre uma captura e outra, uma política saiu e três entraram. Saiu esta:
- Spammy automatically-generated content — Conteúdo gerado automaticamente com spam
E entraram estas:
- Expired domain abuse — Abuso de domínio expirado
- Scaled content abuse — Abuso de conteúdo em escala
- Site reputation abuse — Abuso de reputação do site
A expressão automatically generated aparece em TODAS as capturas até 5 de março de 2024 e em nenhuma depois. Não é uma reforma de texto que foi e voltou: é uma porta que fechou e não reabriu em mais de dois anos de capturas.
O Google anunciou isso no mesmo dia, e o post está no ar: “estamos anunciando três novas políticas de spam”, escrito em 5 de março de 2024 — abuso de domínio expirado, abuso de conteúdo em escala e abuso de reputação do site. O que o anúncio não destaca, e a nossa medição mostra, é o que foi tirado para abrir espaço.
O que exatamente mudou na frase
“Conteúdo gerado automaticamente com spam é conteúdo que foi gerado programaticamente sem produzir nada original nem acrescentar valor suficiente; em vez disso, foi gerado com o objetivo principal de manipular as classificações da pesquisa e não ajudar os usuários.”
“Abuso de conteúdo em escala ocorre quando muitas páginas são geradas com o objetivo principal de manipular as classificações da pesquisa, e não ajudar os usuários (…) independentemente de como cria.”
À esquerda, a tradução da captura de 5 de março de 2024, em inglês no original. À direita, o texto que a página em português traz hoje.
A régua saiu do como e foi para o quanto e o para quê. Na versão velha, “gerado programaticamente” era a porta de entrada da regra: se uma máquina escreveu, você já estava dentro do parágrafo e precisava se defender no “sem produzir nada original”. Na versão nova, a porta de entrada é “muitas páginas para manipular ranking” — e a criação automática virou um dos exemplos de como se faz isso, ao lado de copiar feed alheio e de costurar pedaços de outras páginas.
É esse o exemplo, transcrito da página em português: “usar ferramentas de IA generativa ou outras ferramentas semelhantes para gerar muitas páginas sem agregar valor para usuários”. As últimas quatro palavras não são enfeite. Sem elas, a frase proibiria gerar muitas páginas; com elas, proíbe gerar lixo em série.
O Google já tinha dito isso, um ano antes, com todas as letras
Em 8 de fevereiro de 2023, dois meses depois de o ChatGPT virar assunto de mesa de bar, a equipe de qualidade da busca publicou um post cujo subtítulo é a política inteira: “recompensando conteúdo de alta qualidade, seja lá como ele for produzido”.
O post é curto e vale ler. Ele diz que usar automação — “incluindo IA” — para gerar conteúdo com o objetivo principal de manipular ranking viola as políticas de spam. E diz, na frase seguinte, que “nem todo uso de automação, incluindo geração por IA, é spam”, lembrando que automação já produzia placar de jogo, previsão do tempo e transcrição muito antes disso.
O argumento que eles usam para explicar a escolha é o melhor pedaço: há uns dez anos houve preocupação parecida com uma enxurrada de conteúdo produzido em massa por gente, e ninguém achou razoável banir conteúdo humano por causa disso. Melhorou-se o sistema para recompensar qualidade. É a mesma resposta, com outra tecnologia no meio.
O outro documento: o que os avaliadores humanos leem
Além das políticas, o Google publica um manual gigante para as pessoas que avaliam a qualidade dos resultados à mão. Baixamos 7 versões desse PDF, de 16 de janeiro de 2019 até hoje, e contamos quantas vezes cada uma fala em IA generativa.
| Versão (data da capa) | Palavras | Vezes que diz “generative AI” |
|---|---|---|
| 20 de julho de 2018 | 56.566 | 0 |
| 14 de outubro de 2020 | 59.475 | 0 |
| 15 de dezembro de 2022 | 61.006 | 0 |
| 16 de novembro de 2023 | 58.465 | 0 |
| 5 de março de 2024 | 59.017 | 0 |
| 23 de janeiro de 2025 | 83.611 | 13 |
| 11 de setembro de 2025 | 84.410 | 13 |
A contagem de palavras vale entre versões vizinhas, não entre extremos: ela depende de como cada PDF foi gerado, e uma das capturas antigas vem com um caractere invisível entre as palavras que muda o número sem uma palavra ter mudado. O par que o texto usa está a três dias de distância e saiu da mesma prensa.
Durante seis anos, o documento que orienta o julgamento humano da qualidade não disse “IA generativa” uma vez sequer. A captura de 21 de janeiro de 2025 ainda trazia a versão de 5 de março de 2024, com 0 menções. Três dias depois, em 24 de janeiro de 2025, o arquivo já era outro: a versão de 23 de janeiro de 2025, com 13 menções e 24.594 palavras a mais — um salto de 41,7% no tamanho do manual.
Quem só leu manchete naquela semana guardou “o Google mandou marcar conteúdo de IA como pior qualidade”. O que está escrito é mais específico, e vale citar em três pedaços.
“Páginas e sites feitos de conteúdo criado em escala, sem conteúdo original nem valor acrescentado para os usuários, devem receber a nota mais baixa, não importa como tenham sido criados.”
“O uso de ferramentas de IA generativa, sozinho, não determina o nível de esforço nem a nota de qualidade da página. Ferramentas de IA generativa podem ser usadas na criação de conteúdo de alta e de baixa qualidade.”
“IA generativa pode ser uma ferramenta útil para criar conteúdo mas, como qualquer ferramenta, também pode ser mal usada.”
Há uma quarta frase, e é a que mais explica o desenho todo: o manual manda dar a nota mais baixa quando o avaliador suspeita fortemente de conteúdo em escala mesmo sem saber como a página foi feita. Ou seja, o Google instruiu seus avaliadores a NÃO precisarem responder “isto foi IA?” — porque essa pergunta não tem resposta confiável, e a nota não depende dela.
A versão em vigor hoje é a de 11 de setembro de 2025, com 84.410 palavras e as mesmas 13 menções. O PDF é público e tem quase duzentas páginas.
Vale um lembrete que o próprio documento faz: avaliador não mexe em ranking. Ele dá nota a resultados para o Google medir mudanças nos sistemas. O manual é a melhor janela pública para o que o Google considera qualidade — não é o botão que rebaixa o seu site.
E na prática? O que está no topo hoje
Documentação é o que o Google diz. O que está publicado e aparecendo é outra medição, e essa nós fizemos: 29 páginas que a busca devolve para 8 consultas comuns em português — dinheiro, saúde, casa, carreira, compra e negócio — passadas pelo analisador daqui. Ao lado delas, 12 textos gerados sobre os mesmos assuntos, em dois regimes de pedido.
| Grupo | Textos | Nota mediana | Marcas por mil palavras |
|---|---|---|---|
| Páginas que a busca devolve | 29 | 91,7 | 4,5 |
| Gerados com pedido curto | 8 | 31,6 | 29,7 |
| Gerados com pedido dirigido | 4 | 89,7 | 0 |
Medido em 9 de agosto de 2026. Os resultados vieram da busca disponível a esta máquina, não do Google logado no Brasil — são páginas reais que a busca devolve para consultas comuns, e não um retrato da primeira página do Google. O nome dos sites não é publicado de propósito: ninguém aqui sabe como cada um deles foi escrito, e a tabela viraria acusação.
Duas leituras, e as duas importam. A primeira: 27 das 29 páginas publicadas passam do corte de 76, e só 2 ficam abaixo. Quem está aparecendo, no geral, escreve limpo.
A segunda desmonta a régua na mesma tabela. Os 8 textos pedidos do jeito preguiçoso (“escreva um artigo de blog sobre X”) tiram mediana 31,6 e nenhum deles chega ao corte. Os 4 pedidos com instrução — número conferível, frase de tamanho variado, sem abertura de redação — tiram 89,7 e zero marca de vocabulário. Mesmo modelo, mesmo assunto, mesmo dia. O que mudou foi o pedido.
É a demonstração mais direta de que estilo não é autoria: se um parágrafo a mais no pedido leva o mesmo modelo de reprovado a nota cheia, nenhuma régua de estilo — a nossa inclusive — pode dizer quem escreveu.
Falta o lado que a gente NÃO consegue medir: posição. A página de resultados do Google não abre para leitor automatizado, e a tentativa está registrada no fim desta página. Para isso existem duas medições de terceiros, e vale ler as duas com os olhos abertos.
| Quem mediu | O que mediu | Resultado |
|---|---|---|
| Ahrefs | 600.000 páginas no top 20 de 100.000 consultas | 13,5% só humano |
| Rankability | 487 resultados de topo | 83% humano |
Os dois medem quase a mesma coisa e chegam a números opostos: 13,5% contra 83%. Isso não é detalhe metodológico — é o assunto. Cada um usou um detector diferente, e detector de IA é um chute calibrado, não uma medida. Já escrevemos o artigo inteiro sobre o que esses detectores realmente medem, incluindo o dia em que a OpenAI desligou o dela por acertar 26%.
Mesmo assim, um número da Ahrefs sobrevive à discordância, porque não depende de acertar quem escreveu: a correlação entre a proporção de IA numa página e a posição dela na busca deu 0,011. Zero, para efeitos práticos. Se houvesse penalização por IA, esse número seria negativo e visível. Na mesma amostra, 4,6% das páginas do topo foram classificadas como inteiramente geradas — uma minoria, mas uma minoria que existe e ranqueia.
E agora que a própria busca tem IA, mudou alguma coisa?
Mudou a tela, não a regra. Em 15 de maio de 2026 o Google publicou um guia sobre otimizar para os recursos de IA generativa da Pesquisa — e a parte mais útil dele é a lista de coisas que NÃO funcionam. Vale para quem anda comprando serviço de “AEO” e “GEO”:
- Arquivo llms.txt: “não é necessário criar novos arquivos legíveis por máquina (…) já que a própria Pesquisa Google não os usa”. Manter um não ajuda nem atrapalha.
- Dados estruturados: “não são necessários para a pesquisa de IA generativa, e não há uma marcação especial do schema.org que você precise adicionar” — continuam valendo pelo resto do SEO.
- Picotar o texto em pedacinhos para a IA “entender melhor”: desnecessário. “Não existe um tamanho ideal.”
- Reescrever num jeito especial para a IA: também não. Os sistemas entendem sinônimo e sentido.
E a frase que resume: “do ponto de vista da Pesquisa Google, otimizar para a pesquisa com IA generativa é otimizar para a experiência de pesquisa no geral. Portanto, ainda estamos falando de SEO”.
O medo que traz quase todo mundo até aqui é outro
Quem procura “o Google penaliza texto de IA” raramente está preocupado com política de spam. Está preocupado com parecer IA — que alguém leia e ache que foi máquina. Há uma última medição que mostra o tamanho dessa armadilha.
Rodamos o mesmo analisador em três páginas do próprio Google, em português: justamente as que ensinam a fazer conteúdo de qualidade. A nota vai de zero a cem, e cem é texto sem marca nenhuma de máquina.
| Página do Google | Palavras | Nota | Faixa |
|---|---|---|---|
| Políticas de spam da Pesquisa Google | 3.701 | 79,8 | sem lero-lero |
| Criar conteúdo útil, confiável e voltado para as pessoas | 1.919 | 77,1 | sem lero-lero |
| Otimizar seu site para os recursos de IA generativa | 2.888 | 76,8 | sem lero-lero |
Medido em 9 de agosto de 2026, no texto do corpo de cada página, sem menu nem rodapé. As páginas em português do Google são tradução das originais em inglês — foram medidas como o que são, texto publicado pelo Google em português, e não como prosa escrita em português por uma pessoa.
As três passam, com média de 77,9 — mas passam raspando, e quase todo o desconto delas vem de uma categoria só: a forma do texto. Frases do mesmo tamanho, parágrafos do mesmo tamanho, ritmo de manual. É exatamente o traço que os detectores comerciais leem como “máquina”, num texto que uma equipe de gente escreveu, revisou e assinou.
Junte com a tabela anterior e o quadro fecha: de um lado, texto gerado com um bom pedido tira 89,7 e nenhuma marca; do outro, texto escrito e revisado por uma equipe de gente raspa o corte. A régua de estilo não separa quem escreveu — separa quem teve trabalho.
É por isso que a nossa ferramenta não diz “isto foi feito por IA” em lugar nenhum: ela diz onde o texto soa a máquina, que é uma pergunta que se pode responder — e entrega o comando para consertar, porque consertar é o que resolve o problema real.
O que fazer, na prática
Pode usar IA. Não pode publicar em série sem valor. A linha da política não passa entre humano e máquina; passa entre uma página que alguém precisava e cem páginas que ninguém pediu. Se o seu plano tem a palavra “programaticamente” e um número grande na mesma frase, o problema não é a IA.
Ponha algo na página que não existia antes. A palavra que aparece em todas as versões da regra, desde 2022, é “original”. Medição própria, foto tirada por você, o preço que você cobrou, o erro que você cometeu. É o que nenhum modelo tem para dar.
Revise como se fosse assinar — porque é. As diretrizes de avaliadores falam em esforço, originalidade e valor acrescentado. Texto gerado e publicado sem leitura falha nos três, e falharia igual se tivesse sido escrito por um estagiário apressado.
Não compre truque de “AEO/GEO”. O guia de 2026 do próprio Google desmonta a lista: llms.txt não é lido, schema especial não existe, picotar texto não ajuda.
Se levou punição, você vai saber. O post de março de 2024 diz o caminho: sites que violam as políticas podem cair no ranking ou sumir dos resultados, e quem sofre uma ação manual recebe aviso no Search Console e pode pedir reconsideração. Queda sem aviso nenhum não é ação manual — é o resto do SEO, e o diagnóstico é outro.
O que este artigo não prova
Não medimos posição no Google. Tentamos: a página de resultados responde 200 para um leitor automatizado e devolve uma casca sem nenhum resultado dentro — o conteúdo é montado por JavaScript. Sem navegador de verdade ou API paga, não há medição honesta de SERP, então todo dado de ranqueamento aqui é de terceiro, com nome e link. O DuckDuckGo, testado como alternativa, respondeu 202 e barrou a leitura.
A arqueologia é da página em inglês. É a que o arquivo da web tem de forma contínua desde 2022, e é a original. A versão em português foi lida na fonte, hoje, e diz a mesma coisa — mas o antes e o depois de março de 2024 foram medidos no texto em inglês.
Documentação não é sistema. Tudo aqui mostra o que o Google escreve e desde quando. Nada aqui abre a caixa dos algoritmos, e nenhuma empresa publica isso.
Correlação não é causa. O 0,011 da Ahrefs diz que a proporção de IA não explica a posição na amostra deles. Não diz que usar IA é seguro, nem que ajuda.
O outro lado desta pergunta
Se o que você quer saber é se alguém vai perceber, a resposta está em dois textos vizinhos: o que os detectores de IA realmente medem e as palavras que entregam um texto gerado. E se o que você quer é que ele pare de soar a máquina, o analisador aponta as marcas e entrega o comando pronto para reescrever.
Uma última nota de método, que este blog cobra de si mesmo: as 16 políticas, as 7 versões do manual e as 47 capturas mensais estão num módulo ao lado desta página, com travas que derrubam o build se o texto acima passar a discordar da medição. A página original e a de conteúdo útil estão a um clique para quem quiser conferir cada citação.