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Por que a IA usa tanto travessão

A pergunta já vem com a resposta embutida, e a resposta não sobrevive a uma contagem. Medimos 38 textos em português, de blog a conto do século 19, e quem mais usa travessão na lista morreu em 1908.

Quantos travessões cada tipo de texto usa

Tipo de textoTextosPalavrasPor mil, medianaMaior do grupo
Blog brasileiro, 2018 a 2021108.24103,5
Notícia de agência95.18904,9
Wikipédia em português635.8400,41
Machado de Assis726.9136,612,6
Texto gerado por IA62.3952,38,5

Contagem idêntica à que o analisador daqui faz: todo travessão e meia-risca do texto, dividido pelas palavras, vezes mil. A medida da ferramenta dispara em 18 por mil, e o texto mais carregado dos 38 ficou em 12,6. Medido em 9 de agosto de 2026.

O mesmo número, contando só o travessão do meio da frase

Tipo de textoTodos, medianaSó os do meio da frase
Blog brasileiro, 2018 a 202100
Notícia de agência00
Wikipédia em português0,40,4
Machado de Assis6,61,8
Texto gerado por IA2,32,3

Travessão de diálogo abre linha, por convenção tipográfica do português. A segunda coluna tira esses e conta o resto.

Machado usa quase três vezes mais travessão que a IA

Sete contos de Machado de Assis dão mediana de 6,6 travessões por mil palavras. Os seis textos gerados dão 2,3. O campeão isolado da medição inteira é a “Teoria do Medalhão”, de 1882, com 12,6 por mil, quase o dobro do artigo gerado mais carregado.

Blog brasileiro e notícia de agência ficaram em zero na mediana. Um post de blog e uma matéria passam páginas inteiras sem um travessão sequer, e isso responde metade da pergunta do título: quem lê muito texto gerado e pouca literatura sente que a IA usa travessão demais porque o resto do que ela lê no dia não usa nenhum.

Só que não é o mesmo travessão

A CNN Brasil resumiu as regras a partir da gramática de Evanildo Bechara: o travessão marca expressão intercalada, marca pausa forte e marca mudança de interlocutor. As duas primeiras acontecem dentro da frase. A terceira abre linha, e é o diálogo.

Separando os dois, a tabela vira outra. O Machado cai de 6,6 para 1,8: quase todo travessão dele é fala de personagem, que é a função que a ficção usa e que artigo de blog não tem. Os textos gerados não têm uma linha de diálogo, então os 2,3 deles continuam 2,3. No meio da frase, o texto de máquina usa mais travessão que Machado de Assis.

É esse o travessão que as pessoas estão reconhecendo. O de aposto, que entra no lugar de uma vírgula ou de um ponto, para encaixar uma explicação no meio do período. Quem acusa não está contando travessões: está reagindo a um jeito de encadear frase.

Mesmo assim, o travessão é a pior prova que existe

Nenhum dos 38 textos chega ao limiar de 18 por mil que dispara a medida daqui. Pior: os grupos se sobrepõem. Uma matéria da Agência Brasil marcou 4,9 e um post de blog anterior ao ChatGPT marcou 3,5, os dois acima da mediana dos textos gerados. Um sinal que coloca jornalista humano em cima de IA não separa coisa nenhuma.

A ferramenta daqui trata o travessão como o que ele é. Dentro do canal de forma, ele vale 5 pontos de 85, contra 34 do medo de afirmar e 20 da falta de dado conferível. O comentário no código chama essa medida de a mais frágil das onze e diz que ela é a primeira a sair se reprovar texto humano.

Esta página serve de demonstração. A prosa dela não tem um travessão sequer, e isso não é coincidência: foi escrita assim de propósito, sabendo que a medida existe. Quem for avisado faz o mesmo em cinco minutos, e sinal que se burla em cinco minutos não é prova de nada. O resto do texto passou pelo analisador junto, e tirou 100.

A suspeita cobra um preço de quem escreve

Em maio de 2026 o jornal O Povo ouviu escritoras brasileiras sobre isso. A professora e escritora Clarice Freire contou que evita usar o travessão por medo de ser confundida com máquina, e disse que se sente roubada dessa liberdade. O romancista Sidney Rocha foi por outro caminho: caçar pontuação distrai do problema que interessa, que é o uso não autorizado de obra humana para treinar sistema privado.

Uma régua errada não é neutra. Ela faz professor reprovar aluno que escreveu sozinho e faz escritor abandonar um sinal que está na tabela aí em cima desde 1882, enquanto o texto genérico de verdade passa liso por não ter travessão nenhum.

O que esta medição não cobre

Os seis textos gerados saíram do mesmo assistente que escreve este blog, com prompt comum de artigo, todos no mesmo dia. Seis textos, um modelo. A fama do travessão nasceu do ChatGPT em inglês, e nem o modelo nem a língua da lenda entraram aqui.

Os 32 textos humanos são reais e vieram de fonte pública: Internet Archive, Agência Brasil, Wikipédia e Wikisource. O corpus é remontável por script e ainda não está versionado no repositório, o que faz desta conferência trabalho manual, não teste de integração contínua. Quem quiser refazer com outro modelo vai achar outro número, e é exatamente esse o ponto.

O sinal que presta está em outro lugar

Contar travessão é fácil, e é por isso que virou esporte. O que separa texto pronto de texto pensado é mais chato de olhar: a hesitação que não afirma nada, a ausência de número conferível, a muleta que anuncia a informação em vez de dar a informação. O analisador mede as onze coisas de forma junto com as expressões do dicionário, mostra a conta aberta e devolve o comando para reescrever. Se alguém te acusou por causa de um travessão, cole o texto lá e leve a conta.