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Professor consegue saber se a redação foi feita com ChatGPT?

Pelo texto, não. Medimos 30 redações — 20 escritas à mão dentro da sala do Enem e 10 geradas por IA nos mesmos temas — e os dois grupos se encostam. Pelo arquivo, pelo histórico e por uma conversa de cinco minutos, sim. Este texto separa uma coisa da outra.

A medição: 30 redações no analisador daqui

GrupoTextosMenor notaMedianaMaior notaFora da faixa limpa
Redação escrita à mão na provaEnem 2023 e 2024, cartilhas do Inep2076,486,689,30 de 20
Redação gerada, pedido curtomesmos temas, um pedido de uma linha656,770,282,84 de 6
Redação gerada, pedido dirigidomesmos temas, pedindo dado concreto41001001000 de 4

A nota é a do analisador de texto com cara de IA deste site, e quanto MAIOR, menos lero-lero. A faixa limpa começa em 76, e quem decide se cada nota está nela é a função da própria ferramenta, não uma coluna digitada à mão. Medido em 9 de agosto de 2026, em 11.739 palavras.

As marcas de forma que dispararam em cada grupo

MedidaEscritas à mão (20)Geradas (6)Dirigidas (4)
Conector abrindo parágrafo1960
Travessão demais200
Não nomeia nada030
Regra de três (a fórmula A, B e C)010

As outras sete medidas de forma da ferramenta não dispararam em texto nenhum dos 30.

Por que essas 20 redações provam alguma coisa

Corpus de texto humano quase sempre é humano por confiança: alguém garante que escreveu. Estas 20 são humanas por procedimento. Foram escritas à caneta, na folha da prova, dentro de uma sala com fiscal, nas aplicações do Enem de 2023 e 2024, e depois transcritas e comentadas pelo próprio Inep nas cartilhas do participante de 2024 e 2025. Nenhuma delas pode ter passado por um chat, e as duas aplicações são posteriores ao ChatGPT. A autoria aqui é garantida pela forma como a prova é aplicada, não pela palavra de ninguém — e o material é público, então qualquer pessoa refaz esta medição.

Resultado: as 20 ficam entre 76,4 e 89,3, mediana 86,6, e nenhuma sai da faixa limpa. A régua daqui não reprova redação de aluno, e essa era a promessa que a ferramenta precisava cumprir antes de qualquer outra.

E é exatamente por isso que ela não serve de acusação

As 6 redações geradas com um pedido de uma linha ficaram com mediana 70,2 — mais baixa, como se espera. Só que 2 delas caíram DENTRO da mesma faixa limpa das redações escritas à mão. E as 4 que foram geradas com um pedido melhor — “traga dado concreto, nada de fórmula pronta” — tiraram 100 as quatro, com zero marca de léxico e zero medida de forma disparada. Nota mais alta que a de qualquer aluno do corpus do Inep.

Esse é o ponto que não tem volta: o sinal some quando quem pede a redação escreve um pedido de duas frases a mais. Um traço que se apaga em trinta segundos não pode sustentar um zero, uma reprovação ou um processo. Vale para a régua daqui, que é aberta e mostra a conta, e vale ainda mais para as que devolvem só uma porcentagem.

A contagem crua diz o mesmo. As redações humanas tiveram de 9,3 a 25,8 expressões de lero-lero por mil palavras; as geradas com pedido curto, de 18,6 a 37,7. As duas faixas se sobrepõem no meio, então há aluno do Enem com mais “cara de IA” do que texto de máquina. Quem usa contagem de expressão como prova está acusando esse aluno.

O sinal mais suspeito é o que a escola ensina

A medida que mais disparou na medição inteira foi conector abrindo parágrafo: 19 das 20 redações escritas à mão e 6 das 6 geradas. “Em primeiro lugar”, “ademais”, “outrossim”, “portanto”: todo cursinho ensina isso como estrutura de redação nota mil, e o modelo de linguagem aprendeu no mesmo lugar, lendo os mesmos textos.

Não é coincidência, é convergência. A redação escolar brasileira tem fôrma — quatro parágrafos, tese no fim da introdução, dois argumentos com repertório, proposta de intervenção com agente, ação, meio e finalidade. Uma máquina treinada em português imita fôrma melhor do que qualquer coisa. Quando um professor sente que “o texto parece de IA”, muitas vezes ele está reconhecendo o próprio material didático.

O que funciona: parar de olhar o texto e olhar o arquivo

Um .docx é um .zip. Dentro dele, dois arquivos de propriedades guardam o que o estilo nunca vai contar. Descompactamos um .docx público de demonstração, escrito no Word, e é isto que estava lá dentro:

CampoOndeO que veioO que isso conta
TotalTimedocProps/app.xml8.540minutos que o documento passou aberto em edição — 142 horas no arquivo que abrimos
cp:revisiondocProps/core.xml79quantas vezes o arquivo foi salvo
dcterms:created e modifieddocProps/core.xml2013-06-05 e 2013-06-20quando nasceu e quando parou de mudar — 15 dias de distância
dc:creator e cp:lastModifiedBydocProps/core.xmlnome de quem criou e de quem salvou por últimoos dois nomes, que nem sempre são o mesmo

Um trabalho de dez páginas que chega com quatro minutos de edição e uma única revisão salva foi digitado de uma vez. Isso não prova que uma IA escreveu — pode ter sido copiada do caderno —, mas é um fato verificável, com o número dentro do arquivo, e não uma impressão sobre o vocabulário de alguém. Vale o aviso: “Salvar como” zera parte disso, exportar para PDF apaga quase tudo, e quem sabe do assunto edita o XML em dois minutos.

No Google Docs a informação é ainda melhor, porque é histórico e não só total: o arquivo guarda quem editou, quando, e o que mudou em cada versão. Um texto construído em sessões, com frase apagada e parágrafo movido, tem uma forma; um texto que aparece inteiro numa colagem tem outra. A própria documentação do Google avisa o limite: o dono do arquivo pode apagar permanentemente todas as versões não nomeadas, e nem toda alteração aparece no histórico. Serve como evidência a favor de quem escreveu, não como prova contra quem não guardou nada.

A prova mais forte é a referência que não existe

Modelo de linguagem inventa fonte com formato perfeito. Quando isso entra num trabalho, vira o único indício que se verifica sozinho: ou o artigo citado existe naquele volume, naquela página, com aquele autor, ou não existe. Em março de 2026 a revista Pesquisa Fapesp contou o caso de um artigo publicado no Journal of Academic Ethics em abril de 2025 e retratado em janeiro de 2026: de 29 referências, pelo menos 19 tinham problema, e 11 apontavam para um periódico onde não estavam. Os autores admitiram ter usado o ChatGPT para gerar a bibliografia.

Para um professor, isso vira rotina de correção, não caça às bruxas: sorteie três citações do trabalho e procure as três. É barato, é reprodutível e o resultado é binário. Um aluno que defende um texto com fonte inexistente tem um problema real de integridade acadêmica, independentemente de quem escreveu as frases.

A conversa de cinco minutos ainda é imbatível

Peça para a pessoa explicar o segundo argumento com outras palavras. Pergunte por que ela escolheu aquele autor e não outro. Peça um exemplo que não está no texto. Quem escreveu sabe responder; quem colou, não. É o método mais antigo que existe, não deixa rastro digital nenhum e não depende de software, mas tem custo: exige tempo de aula e é constrangedor quando aplicado só a quem o professor já suspeita. Aplicado a todos, vira avaliação. Aplicado a um, vira acusação.

Há também o truque que viralizou. Em julho de 2026, o professor Jason Gibson, da Alcorn State University, no Mississippi, escondeu uma instrução em letra branca sobre fundo branco no enunciado de uma redação sobre a Revolução Industrial: mandava incluir a palavra “Madagascar” em algum ponto sem sentido. Trinta e dois dos 35 alunos entregaram textos com frases como “Madagascar flutua de lado durante a tarde”. Funciona, e funciona uma vez: pega quem colou o enunciado inteiro sem reler a resposta, não pega quem digitou a pergunta, e a turma seguinte já sabe do truque.

O que NÃO prova nada, e continua sendo usado

Perguntar ao ChatGPT se ele escreveu. Ele não tem registro do que gerou e responde com segurança nos dois sentidos. O Aos Fatos ouviu os dois lados disso em junho de 2023: de um lado, um grupo de alunos de Ciência da Computação do Rio de Janeiro que levou zero com o professor dizendo apenas que houve uso de IA, sem mostrar prova, com risco de reprovação e seis meses de atraso no curso; do outro, uma professora de português de uma escola particular de São Paulo que submeteu ao próprio ChatGPT as redações de dois alunos do 7º ano e o chat respondeu que tinha gerado aqueles textos. Quem decidiu o caso não foi o chat: ela conversou com os dois, disse que o vocabulário não batia com o que eles escreviam, e um deles confessou.

Detector automático como sentença. A própria OpenAI desligou o classificador dela em 20 de julho de 2023, com a nota de que a ferramenta saiu do ar “devido à sua baixa taxa de acurácia” — a nota foi publicada na página do produto e reproduzida pela Search Engine Land, que é onde nós a lemos, porque o site da OpenAI recusa acesso automatizado. Quem tinha os pesos do modelo desistiu de detectar o próprio modelo.

“Está bom demais para esse aluno”. É a acusação mais comum e a mais frágil, porque mede a expectativa do professor, não o texto. Vale para vocabulário, para estrutura e para o travessão, que virou esporte nacional e não separa nada — Machado de Assis usa mais que a máquina.

Formatação estranha colada do navegador. Aspas tipográficas e caracteres invisíveis dizem que o texto veio de outro lugar, e só. Podem vir de uma página da Wikipédia, de um PDF ou do Word do irmão mais velho — nós medimos 46 documentos para descobrir de onde vem cada um.

A regra brasileira já disse isso, e por escrito

A norma mais recente e mais completa que encontramos em universidade federal é a Resolução Consepe nº 57/2025 da UFPB, aprovada em 17 de setembro de 2025. Ela vale a leitura porque decide as duas coisas na direção oposta ao que a sala de aula costuma fazer.

Primeiro, sobre software: o art. 5º, §2º diz que o relatório gerado pelo detector “por si só não determina a ocorrência de plágio acadêmico, mas servirá de materialidade para orientar procedimentos”. O número abre um processo; ele não é o processo. O art. 6º ainda gradua o que fazer com cada faixa de similaridade, e só acima de 50% a resolução fala em “indício relevante” — indício, não conclusão.

Segundo, sobre IA: o art. 2º autoriza o uso como apoio a ideação, busca de literatura, síntese, revisão linguística, tradução, formatação e visualização de dados, e veda a substituição do raciocínio, da autoria e do método. A exigência que ele cria é de DECLARAÇÃO — dizer qual ferramenta, qual versão e para quê —, com validação integral do conteúdo pelo autor. Nenhuma linha manda detectar. A régua institucional é transparência, e transparência se cobra no enunciado, antes da entrega.

Isso conversa com o resto do ordenamento. Universidade pública que aplica sanção está em processo administrativo, e a Lei 9.784/1999 manda no art. 2º observar ampla defesa, contraditório e motivação, e no art. 50, II, motivar por escrito, “com indicação dos fatos e dos fundamentos jurídicos”, todo ato que imponha sanção. “O texto parece de IA” não é indicação de fato. É impressão.

Se você é aluno e foi acusado sem prova

Junte o processo, não o argumento. O histórico de versões do documento, os rascunhos anteriores, as anotações, os PDFs que você leu, o print da busca na biblioteca. Peça por escrito qual é a prova e qual regra do curso foi descumprida — se a resposta for uma porcentagem de um detector, a Resolução da UFPB acima é um bom exemplo do que uma norma séria diz sobre isso. E ofereça a arguição: quem escreveu explica o próprio texto, e é a saída mais rápida para os dois lados.

Um aviso desconfortável: se você usou IA e não declarou onde a regra exigia declaração, o problema é esse, e não o detector. As normas recentes cobram transparência justamente porque detecção não funciona.

Se você é professor e quer resolver de verdade

O caminho que funciona é mudar o desenho da avaliação, não comprar software. Peça o processo junto com o produto — rascunho, fichamento, histórico. Escreva no enunciado o que é permitido e o que precisa ser declarado, com a mesma clareza com que se diz o número de páginas. Cobre uma parte da nota em algo que aconteça na sua frente: defesa oral, questão manuscrita em sala, apresentação. O Enem faz isso desde sempre, e é por isso que este artigo teve corpus para medir.

Vale saber o tamanho do problema antes de escolher a resposta. A TIC Educação 2024, do Cetic.br — 10.756 entrevistas em 1.023 escolas, entre agosto de 2024 e março de 2025 — mostra 70% dos alunos do ensino médio usando IA generativa em pesquisa escolar, e apenas 32% dizendo ter recebido alguma orientação da escola sobre como usar. A distância entre esses dois números é o problema inteiro, e nenhum detector encosta nela.

O que esta medição não cobre

Os 10 textos gerados saíram do mesmo assistente que escreve este blog, no mesmo dia, com dois tipos de pedido. Um modelo só, amostra pequena, e outro modelo daria outros números. As 20 redações humanas são as que o Inep escolheu comentar nas cartilhas, ou seja, texto de quem foi muito bem na prova — não representam a redação média do país, e sim o teto dela.

A régua também é uma só: a nossa. Ela mede vício de escrita e diz na cara que não estima autoria. O que a medição sustenta é o formato do problema, e ele não muda de detector para detector: os grupos se encostam, e o sinal desaparece quando quem gera o texto pede melhor. O corpus é remontável — as duas cartilhas são públicas, e o extrator separa as redações pelo recuo de parágrafo do PDF —, mas ainda não está versionado aqui, então esta conferência é trabalho manual e não teste de integração contínua.

Esta página passou pelo mesmo analisador, e o resultado serve de exemplo do que ele mede: 97,5, com oito marcas em 2.214 palavras. Todas as marcas são expressões que o texto cita para explicar — “ademais”, “outrossim”, “portanto” e o “indício relevante” da resolução. Nenhuma medida de forma disparou.

Se você chegou por causa de uma acusação, sua ou de alguém, cole o texto no analisador e leve a conta aberta: ele mostra o que marcou, quanto cada coisa pesou e por quê. Uma conta que se pode discutir é o oposto de uma porcentagem que se deve obedecer.